terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Saudades da Rádio Guaíba

Nos anos em que estive na Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas-SP, onde entrei em 1998, e na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende-RJ acompanhava os jogos do Inter com um radinho a pilha que tinha recepção de ondas curtas. Era muito bacana poder acompanhar os jogos do meu time. Claro que a recepção não era das melhores, principalmente entre o final da tarde e início da noite, quando a rádio sumia e depois retornava. Quando acontecia no meio de uma partida de futebol era terrível. Durante os finais de semana, sempre tentava sintonizar a Guaíba, para me interar das notícias do meu Rio Grande, e especialmente de Porto Alegre.


O tempo passou, a era da internet chegou, e continuei a acompanhar a rádio. Seja pelos programas esportivos, ou pelos debates do Espaço Aberto. Claro que à medida que fui despindo a doutrinação esquerdista imposta sobre minha geração, comecei a questionar alguns aspectos históricos da rádio, como a tal da campanha legalista, mas isto é secundário. Bem ou mau, quase sempre a Guaíba trazia temas polêmicos e debates interessantes da política, assim como tinha certamente a melhor programação esportiva.

E foi então que aconteceu. A rádio foi comprada pela rede Record. E pronto, se foi a minha rádio. A programação decaiu a um nível ridículo, e a Guaíba deixou de ser uma rádio diferente. Passou a ser ordinária. Pouco a pouco fui abandonando a rádio, e hoje praticamente não a escuto mais.

Fiquei pensando: "como é terrível o capitalismo! Uma empresa grande, de abrangência nacional, acabou com a minha rádio. Isto é injusto! Deveria haver um meio de se evitar este tipo de coisa". Mas... Tem culpa o modelo capitalista? Não.

Estudando o problema mais a fundo, constatei que o que ocasionou a extinção da Guaíba não foi o capitalismo, com seu livre mercado. O modo como este é banido no país é o que determinou, e ainda determina o fim de rádios e emissoras locais de televisão: a regulamentação e intervencionismo estatal. Senão vejamos:

Em uma economia de mercado, o governo simplesmente não determinaria quem poderia ou não ter uma emissora de rádio e televisão. Qualquer cidadão com as capacidades técnicas necessárias e o investimento inicial de capital suficiente, poderia fundar a sua própria emissora de rádio ou televisão, sem depender de concessão estatal para isto. A única regulamentação que o governo deveria dar era a distribuição do espectro eletromagnético de maneira que uma nova empresa não utilizasse a frequência de outra, por critérios essencialmente técnicos. Fosse desta maneira, a Rede Record não precisaria comprar a Guaíba, pois não necessitaria de permissão do governo para funcionar. Como esta já a tinha, aquela só poderia comprá-la de maneira a evitar todo o processo burocrático envolvido na autorização governamental.

Fruto desta excessiva e autoritária regulamentação formou-se no Brasil algo singular: uma rede nacional de televisão aberta, cujo mercado é dominado pela Rede Globo e emissoras como a própria Record, a Band e o SBT. Não temos aqui os canais locais privados, onde os assuntos da comunidade são mais enfatizados. Desta maneira, existe uma perigosa homogeneização da opinião pública e mesmo da cultura. Um país das dimensões do Brasil deveria ter centenas de emissoras locais, das cidades e dos estados que compõe a Federação, e não apenas duas ou três grandes empresas que ditam o que é certo e o que é errado. O mesmo ocorre com os jornais, que nada mais são do que estações repetidoras do que é dito nas sedes de suas empresas matrizes, como o caso da Zero Hora e o Correio do Povo.

Ao tratar as telecomunicações como algo que pertence à nação, como questão de segurança nacional, os governos ao longo dos anos fomentaram o atrofiamento do pensamento individual de cada cidade, e estado. Redes nacionais de televisão, em um país de tão vasto território, é algo muito perigoso. Deveria ser reservado à televisão por assinatura. Como resultado, os assuntos que ocorrem nos diversos recantos da nação são subtraídos em detrimento do acontecimento nacional. A dominação cultural e política da população fica facilitada, pois basta infiltrar-se em um ou dois conglomerados da mídia e pronto, um pequeno grupo pode dizer o que é certo ou errado para a maioria, algo que não aconteceria se houvessem mais emissoras locais.

Mudar este quadro atualmente é praticamente impossível. Enquanto não vivermos uma economia de mercado, onde o estado não meta seu bedelho em assuntos de domínio público e privado, veremos cada vez mais novas Guaíbas, engolidas pelas gigantes nacionais, impondo uma só visão de mundo, uma só realidade. As lideranças locais serão pouco a pouco destruídas, e a liberdade de pensamento e informação estará, finalmente, extinta.


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