segunda-feira, 22 de março de 2010

Moral de Cuecas

Como pode, então, uma intelectualidade que fomenta e incentiva condutas de traição e promiscuidade cobrar um comportamento diferente das chamadas celebridades?

Vejam o caso do golfista Tiger Woods, ou do cantor Dudu Nobre. O que eles têm em comum? Aparentemente, ambos tiveram aventuras enquanto estavam casados, o que causou verdadeira indignação dos diversos setores da mídia, especialmente no caso do golfista. Tido como modelo exemplar de conduta profissional e pessoal, viu sua imagem ser destruída em questão de segundos, retirando-lhe patrocinadores e causando-lhe inúmeros incomodos pessoais. No caso do Dudu Nobre, sua ex-mulher é notícia em quase todas as revistas de fofocas tupiniquins, revigorando nosso apetite insaciável pela conduta pessoal da vida alheia.
Que os dois casos possam ser condenados sob uma ótica ou outra é compreensível. Mas que a mídia e a intelectualidade em geral os condene soa um pouco paradoxal. Afinal, que autoridade moral tem o meio jornalístico, cultural e midiático para condenar uma conduta que eles mesmos incentivam diariamente? Vejamos:
Na esmagadora maioria da produção cultural, não só brasileira como mundial, a temática da traição e da promiscuidade é requisito obrigatório para que um escritor ou novelista consiga vender sua obra e continuar trabalhando. Afinal, produção cultural hoje significa escrever umas tramas bobas, consoantes com o ataque aos nossos valores mais caros e mostrando que a traição e a putaria generalizada não só são atitudes compreensíveis, mas também desejáveis. Desta maneira, o autor vende livro, faz sucesso e num passe de mágica vira um intelectual. Exemplos não faltam.
Basta ligarmos nas novelas televisivas nas minisséries, ou abrir um livro de um romancista brasileiro dos dias de hoje para verificarmos que tanto a traição quanto a promiscuidade são retratadas de forma positiva. E não a traição por razões sentimentais, mas puramente aquela guiada pelo desejo. Da mesma maneira, um homem ou mulher que tenha inúmeros parceiros é retratado como sendo o cara popular aquele exemplo de conduta. Quando uma esposa movida exclusivamente pelo desejo sexual comete um ato de infidelidade, como aconteceu em uma novela recente, o que acontece? O público torce para que o amor dos amantes dê certo. OK, mas aquilo era amor ou simplesmente desejo? E o pior é que este tipo de comportamento. não só é retratado de forma positiva como também é veiculado em horários onde crianças e adolescentes estão assistindo à TV. Culpa dela? Em parte, mas ainda mais culpados são os pais que permitem que seus filhos assistam a tal tipo de programação. Mas aí vem a pergunta: Não estariam os adultos de hoje tão alienados, tão doutrinário pela tal da nova era que não percebem que este tipo de programação é nefasta? A resposta é sim. O certo tomou o lugar do errado e vice-versa.
Como pode, então, uma intelectualidade que fomenta e incentiva condutas de traição e promiscuidade cobrar um comportamento diferente das chamadas celebridades? Com que respaldo estas pessoas exigem de outras atitudes contrárias às que foram implantadas sistematicamente em suas vidas?
Um outro exemplo que podemos utilizar foi a da utilização de uma criança como rainha de bateria de uma escola de samba. Todos acharam isto a coisa mais normal do mundo, como se uma posição como esta não despertasse olhares de cobiça e de sentimentos sexuais puros. Agora juntem a isto o fato de ser uma criança. Pergunto: será que este tipo de situação não aumenta a tendência pedófila daqueles que a possuem? Será que, para um pedófilo, ver uma criança como rainha de bateria de uma escola de samba não é algo realmente excitante? Não tenho dúvidas que um indivíduo com esta tendência certamente sentiu-se mais encorajado a procurar a fonte de seu prazer. Mas parece que para nossa intelectualidade, a coisa não ocorre deste jeito, porque o carnaval é a maior demonstração de nossa cultura nacional. E quando alguém comete o hediondo crime de pedofilia estas mesmas pessoas que o incentivaram a isto, pela indiferança ante a sexualização prematura de nossas crianças, vêm atacar com toda a otoridade alguém que cometeu uma conduta que eles mesmos incentivaram.
Infelizmente, não é somente nas questões sexuais que isto acontece. A figura do malandro, o sujeito despreocupado que sempre procura dar um jeitinho inclusive utilizando-se da violência, tornou-se verdadeiro ícone de nossa chamada (oh céus!) cultura. Desde o surgimento das rodas de samba esta figura é cantada em prosa, verso, ópera, filme, novela e teatro. Se isto não é incentivar a corrupção, a vagabundagem, e a total descrença nos nossos valores familiares e laborosos então eu não sei mais o que é. Novamente, nossos formadores de opiniões do alto de sua moral condenam veementemente os atos de corrupção, favorecimento, nepotismo, sequestros, assaltos, homicídios. E novamente foram eles que plantaram no seio de nossa sociedade que ser malandro é algo bom, é a alma da brasilidade. E fazem este jogo duplo sem sequer ruborizarem.
Este é apenas um pedaço do triste retrato de nossa produção dita de elite. Uma série de repetições de modismos estrangeiros sem qualquer reflexão a respeito que nos tornam reféns de uma produção literária, musical e cinematográfica cada vez mais fraca e desajustada. Em seus livros, filmes e musicais, nossos ídolos incentivam a traição, a promiscuidade e a malandragem para no minuto seguinte colocarem uma cueca na cabeça e saírem condenando condutas que incentivam. É como aquela máxima da educação: a mão que bate é a mesma que acalanta.
E quanto aos verdadeiros intelectuais que produzem obras densas e profundas? Bom, estes não conseguem boas vendas, pois seus trabalhos exigem reflexões aprofundadas de críticos e consumidores. E a atrofia cerebral generalizada não permite que suas obras sejam reconhecidas como deveriam ser.



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