terça-feira, 2 de março de 2010

O Valor Relativo da Vida Humana

Orlando Zapata Tamayo, preso político do governo de Fidel Castro, vítima fatal de uma greve de fome iniciada como forma de protesto pelas condições desumanas das prisões as quais são submetidos os opositores da ditadura cubana. Sua morte pouco repercutiu no noticiário brasileiro, mas as declarações do nosso presidente sim. Segundo ele, não podemos julgar um país ou a atividade de um governante em função da atitude de um cidadão que decide fazer uma greve de fome. Trocando em miúdos: Fez greve de fome, azar o dele.
É assim que a vida humana é tratada pelos militantes da esquerda. Se ela for de um de seus companheiros, tem valor. Se for de um de seus opositores, que se dane. Fidel ainda afirma que Lula sabe que o governo cubano jamais torturou, ou perseguiu seus adversários. Isto é uma meia-verdade, se formos analisarmos o fato de que a maioria daqueles que se opuseram à tirania de Fidel foram mandados para el paredón e sumariamente executados por cometerem o crime hediondo de protestar contra o governo comunista e sanguinário (perdão pela redundância) que a cinco décadas assola aquele país caribenho. Para Lula, azar de Zapata. Ninguém mandou que fizesse greve de fome. E os grupos que esperavam a intervensão do presidente brasileiro na questão dos presos políticos ficaram a ver navios. Parece que se esqueceram que isto é uma questão interna de Cuba, e não cabe ao Brasil intervir. Mas... não foi exatamente o que fez o molusco na questão Zelaya, se imiscuiu em assuntos internos de nação estrangeira? O que há de diferente neste caso? Ora, agora não era um cumpanhêro que estava em apuros, mas um opositor que ousou usar a palavra para criticar o governo da ilha. Então vale a máxima de, dois pesos, duas medidas.
Interessante é verificar que nossos intelectuais nada dizem a respeito. Nade de surpreendente. Afinal, a vítima era contrária ao maravilhoso e humano regime comunista, então deveria mesmo morrer. Sua vida não vale nada. É o mesmo caso do tenente da PM de São Paulo que foi morto a coronhadas por Lamarca. Era inimigo; consequentemente sua vida nada vale. Diferente dos guerrilheiros do araguaia eternos defensores da democracia, ou dos pobres estudantes que lutaram contra a ditadura. A eles tudo. Indenizações milionárias, pensões vitalícias por terem sido torturados e toda a sorte de benefícios. Aos mortos que eles fizeram e àqueles que torturaram a eterna acusação de culpados, de escória, o esquecimento. Este é o valor dado à vida humana por nossos democratas. Não que tais indenizações não sejam justas. Injusto é que elas contemplem apenas um dos lados, contrariando a tal da Lei da Anistia que, se me lembro, foi ampla e irrestrita.
Para Lula, claro que não há tortura ou assassinatos de opositores do governo na ilha de Cuba. Assim como não existe mensalão ou ligação do PT com as FARCs via Foro de São Paulo. Nosso presidente jamais trairia a confiança de seu velho e caquético camarada. São sócio-fundadores do maior movimento revolucionário da América Latina, verdadeiros irmãos de sangue. Possuem a bênção de nossa Igreja, de nossos meios acadêmicos e de nossos jornalistas e intelectuais em geral. São imunes a qualquer ataque, a qualquer fato por mais provado e comprovado que seja. Ambos possuem uma blindagem ideológica, uma áura divina que os torna gurus e fontes para toda uma geração de formadores de opiniões. Possuem, inclusive, o poder de decidir o valor da vida humana, como fizeram neste caso.
E ainda tem a cara-de-pau de dizer, perante um altar, que é um homem sem pecado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário