domingo, 4 de abril de 2010

A Páscoa de Outrora

Não se pode falar em cultura e identidade de um povo se lhe for tirado o fator religioso, pois este precede qualquer outro.


Não faz muito tempo, cerca de 20, 25 anos acredito, quando eu acordava no domingo de Páscoa em busca dos ovos de chocolates deixados pelo coelhinho. Lembro de fazer ninhos com caixas de sapatos, na esperança de que pela manhã, o danado do bichinho me deixaria doces lembranças de cacau, leite e açúcar. Bons tempos aqueles. Acordávamos cedo, meus irmãos e eu, em busca das recompensas de chocolate.
Mas não é só isto que mudou. Os dias que antecediam o renascimento do Cristo eram realmente dias santos. Lembro que na Quinta - Feira e a Sexta-Feira da Paixão, não havia atividades em lojas ou escolas. Eram dias de reflexões e de aprendizados, com meus pais contando a história da crucificação de Jesus e das missas que reviviam o maior mistério da fé cristã: a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eram dias onde não se podia brincar, cantar, ouvir música ou mesmo assistir à televisão, pelo menos até as 16 horas da Sexta-Feira Santa, horário da morte do Cristo. Não se comia qualquer tipo de carne que não fosse peixe, e as refeições não eram fartas e por vezes jejuns eram feitos como forma de respeitar a memória daquele que morreu para salvar-nos de nossos pecados e nos deixou uma lição muito maior do que o amor: a do perdão sincero. Infelizmente parece que esses dias de profundo significado religioso e mesmo místico não passam agora de reles feriados quaisquer, sem qualquer significado, cujo único objetivo é proporcionar horas de descanso e lazer em praias ou casas de campo. Não há mais as reuniões de famílias, onde irmãos, pais, filhos, tios, primos se reuniam para fortalecer os laços familiares e esperarem ansiosos pelo domingo.
O fato ainda mais assustador é a rapidez com que estes valores foram destruídos em prol da chamada independência entre Estado e Igreja. Confundiram esta necessária separação legal com a separação cultural. Não se pode falar em cultura e identidade de um povo se lhe for tirado o fator religioso, pois este precede qualquer outro. A religião é a origem e a fonte do direito e dos costumes de um povo. Foi assim que os egípcios mantiveram-se coesos mesmo diante de inúmeras invasões. Foi assim que gregos e romanos fundaram as bases legais de nossa civilização. Foi essa mesma unidade religiosa que permitiu o surgimento da identidade dos judeus, árabes e dos povos do oriente. Foi graças à unidade religiosa que a Europa resistiu ao invasor externo, possibilitando que o mundo seja como o conhecemos hoje.  
A velocidade com que nossos valores cristãos (afinal, somos um país cristão sim) foram deteriorados é aterradora. Em duas décadas, nossos estudiosos e difusores do pensamento e conhecimento conseguiram fazer com a fé cristã o que milênios de perseguições não conseguiram, mesmo quando os romanos assassinavam cristãos simplesmente pelo fato de serem cristãos. Nos bancos universitários das ciências humanas e sociais, tudo o que é relativo à igreja cristã é maléfico, ao passo que tudo relativo à chamada "verdadeira cultura nacional" (uma mistura de cultos africanos e indígenas), é tido como verdade absoluta, como se fôssemos culturalmente todos descendentes de africanos e indígenas, quando na verdade nossa raiz cultural é majoritariamente européia e ocidental. O caso chega ao ponto em que atacar o candomblé e a umbanda possa ser crime de preconceito ou mesmo racismo. Quando o ataque se volta à cristandade, vira liberdade de opinião.
Destruindo a religião ataca-se também a família, pois esta é originária daquela. Os núcleos familiares somente começaram a ocorrer quando o ser humano começou a cultuar os seus mortos naquilo que era o início da noção de religiosidade. Várias formas de cultos religiosos surgiram e um sempre tentou sobrepujar o outro. Foi durante a Revolução Francesa, entretanto, que surgiu a idéia de destruir por completo a religião no sentido metafísico, místico e filosófico que a compõe em prol de um culto baseado exclusivamente na razão. De lá para cá, toda a forma de revolução procura realizar o mesmo, tornando o próprio Estado uma forma de religião, segundo eles, a mais pura e correta.
Páscoa, é muito mais do que ovos de chocolates e coelhinhos para os cristãos. É a prova contundente de que a fé vence a morte, e de que a mais valiosa das virtudes não é o amor, mas o perdão verdadeiro, sem ressentimentos. É o maior dos mistérios da fé.
Nossos formadores de opinião, em coro, repetem o discurso e cada vez mais transformam datas místicas e de valor profundamente emocional e filosófico em mais um dia vermelho no calendário para que possamos ir à praia. E assim, lentamente, vamos perdendo nossa identidade familiar e religiosa que nos define como civilização.

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