terça-feira, 4 de maio de 2010

A Copa do Mundo é Nossa

Décadas de descaso com a infra-estrutura de todos os setores da sociedade estão agora sendo tardiamente notados.

Parece que a euforia pela conquista brasileira em sediar os dois maiores eventos esportivos do mundo, a Copa do Mundo e os jogos Olímpicos, ainda não passou. Muitas promessas, muitos projetos, e tudo no papel. Efetivamente, nada ainda foi feito para viabilizar cidades e estádios para que possam sediar eventos desta monta. Enganam-se aqueles que acreditam que, num passe de mágica, tudo será resolvido. Aliás, talvez seja isto o que está se passando na cabeça de nossos políticos. Uma "situação de emergência" e pronto, é tudo o que nossos mandatários precisam para aprovar obras sem licitações e superfaturadas, e consequentemente, encher seus já estufados bolsos de dinheiro público.
Não é por acaso que a FIFA está preocupada com o andamento das obras para a Copa. O poder público, na sua mobilidade paquidérmica característica, parece acreditar que este evento é como um carnaval, que basta um grandioso espetáculo de abertura e está tudo resolvido. Mas não é. E todos sabem que quando o Estado assume qualquer coisa, necessariamente ocorrem irregularidades, lentidão, e ineficiência. Afinal, como não visa lucro, a atividade estatal, qualquer que seja, é incompetente quando comparada à atividade privada. E mesmo quando o privado assume contratos a pedido do governo, fatalmente ocorrem irregularidades e superfaturamentos são inevitáveis, sem falar de tantas outras infrações. Isto porque nosso empresariado tornou-se um escravo permanente da política nacional, e está fadado a incorrer em atos de corrupção, desvios e atrasos nos diversos cronogramas.
Além destes aspectos, nosso querido e prestimoso governo insiste em punir as iniciativas privadas que poderiam tornar a construção e reformas de nossos estádios bem mais eficientes e baratos. Como exemplo, basta citarmos os estádios do Morumbi, a Arena da Baixada e o Beira - Rio, estádios escolhidos pela FIFA como sedes para jogos da copa do mundo. Lógico que o poder público não deve colocar dinheiro nestas estruturas, mas porque não conceder a isenção fiscal para as empresas que operarem nestes locais? Porque punir clubes como o Internacional, o São Paulo e o Atlético Paranaense pelo fato de disporem de estádios próprios?
Este fato simples revela a cultura que impera no pensamento nacional. Aqueles que lutam para terem seu próprio negócio, que geram renda e emprego são sempre vistos como inimigos gerais da nação são a elite que precisa ser combatida. E estes clubes, que dispõe de estrutura própria, estão sendo punidos por terem conseguido tais conquistas. Em contrapartida, estádios proliferam em cidades que jamais receberão o público de espectadores em suas novas arenas após o fim do mundial. E milhões de reais que saem do meu e do seu bolso estão sendo destinados para a construção ou reforma de estádios em cidades como Brasília, Cuiabá, Manaus, Natal, dentre outras, que fatalmente se transformarão em enormes elefantes brancos que nada irão trazer a não ser os custos pela sua manutenção. Não passam apenas de manobras políticas que buscam votos através da velha estratégia de pão e circo.
Mas o problema dos estádios de futebol é mínimo quando pensamos na infra-estrutura das cidades sedes para o evento. Obras que há muito deveriam ter sido feitas somente agora com o advento deste evento esportivo trazem a tona a sua real importância. Infelizmente, não passarão de obras com viés político. Neste país, não há comprometimento em longo prazo, mas apenas com a promoção pessoal.
Um exemplo que podemos citar é o caso da cidade de Porto Alegre e sua terceira perimetral. Esta grandiosa artéria rodoviária tinha como objetivo desafogar o congestionado trânsito da capital, além de ser promessa antiga da então administração petista. Após inúmeros processos e longa espera, a famigerada obra enfim foi concluída (às pressas, para não deixar o crédito pelo empreendimento à nova administração). E o que se viu? Uma grande avenida que rasga a cidade e é pontilhada de semáforos que tornam a expressão "via expressa" uma verdadeira piada para designá-la. Milhões de reais gastos para colocar escadas rolantes e elevadores para os pedestres em contraste com a manutenção dos cruzamentos desta avenida com as movimentadas Ipiranga e Bento Gonçalves, resultando, talvez, nos dois mais confusos cruzamentos viários que se tem notícia! Bastava uma  ou duas elevadas (viadutos) e pronto, o trânsito fluiria conforme o planejado (embora a diminuição de outros cruzamentos e da sinalização semafórica seja urgente).
Mas não. Em virtude de pressões eminentemente políticas a obra foi apressada e o que se viu foi que a via destinada a desafogar o trânsito da capital dos gaúchos tornou-se ela mesma fonte de congestionamentos! É o resultado obtido quando o interesse partidário supera o público, fato este que é notório e recorrente em todo o território nacional. Nota-se que este é apenas um exemplo de uma das cidades. Se sem pressão para realização de um evento mundial foi realizada uma obra impensada e mal planejada, imaginem quantas mais irão se multiplicar pelas cidades? Afinal, nenhum partido irá querer perder a alcunha de ter sido "aquele que possibilitou a realização da Copa do Mundo"!
Décadas de descaso com a infra-estrutura de todos os setores da sociedade estão agora sendo tardiamente notados. Isto se deve ao fato de que o Estado tem se preocupado em fagocitar áreas econômicas que poderiam ser muito bem absorvidas pela atividade privada, ou pelo menos com uma concorrência mais ampla, como a saúde, a educação (especialmente a superior), previdência, energia, correios e tantos outros setores que, sob administração pública ou sob o manto do monopólio (caso da Petrobrás) sofrem de crônica falta de eficiência e controlam preços de maneira acintosa.
Além disto, a proliferação de cargos públicos suga centenas de milhões de reais a cada ano que poderiam ser melhores empregados nos setores ditos essenciais, que são a segurança e a infra-estrutura, além da educação básica e da saúde. Mas parece que nossos governos estão muito mais preocupados em gastar 700 milhões de reais para ampliar e reformar o estádio Mané Garrincha em Brasília do que investir na estrutura das cidades sede! Porque não somente isentar de imposto as obras da Copa  previstas no famoso PAC e estendê-las aos clubes que possuem estrutura própria para sediar um evento esportivo desta monta como forma de premiar as iniciativas empreendedoras destes clubes?
Claro que o assunto é complexo e extenso, e a questão tributária deveria ser colocada em questão, pois vivemos numa falsa federação, onde a união arrasta para seus domínios toda a riqueza produzida por seus estados-membros, e depois a redistribui de acordo com os interesses do partido que está no poder, e não de acordo com o arrecadado por cada estado, numa clara demonstração de injustiça fiscal.
O resultado é a construção de moderníssimas arenas e estádios em lugares que jamais aproveitarão as suas estruturas no pós-copa. A lavagem de dinheiro e o desvio de verbas serão inevitáveis, e muitos políticos certamente sairão milionários com estas verdadeiras obras faraônicas.
Sediar um evento desta monta é sem sombra de dúvida um grande incentivo para a modernização de nossas estruturas urbanas e esportivas. O que não pode ocorrer é que, sob o pretexto da Copa do Mundo, ilícitos administrativos sejam encarados como necessários e inevitáveis para que possamos sediar este evento revestido de profundo teor emocional no imaginário brasileiro, sob pena de termos no pós-copa obras inúteis, desnecessárias e de alto dispêndio econômico para os futuros governantes.

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