terça-feira, 4 de maio de 2010

Inveja do Walter Hupsel

Não posso dizer que invejo os hermanos do Prata. Quem eu invejo mesmo é o senhor Walter Hupsel.

Navegando pela internet, deparei-me com uma coluna no mínimo curiosa no sítio do Yahoo. Seu título: Inveja dos Hermanos. Atendendo ao apelo inconsciente da rivalidade continental, não pude me furtar a conferir o teor do link que, ao acessá-lo, soube tratar-se de uma coluna de Walter Hupsel. Eis como começa sua coluna:

"Tenho inveja dos argentinos. Invejo a capital, com calçadas largas e de fácil circulação. Invejo a parrilla, os vinhos, o doce de leite. Invejo as livrarias e sebos, onde encontramos títulos preciosos que sequer existem em português. Até a semana passada isso era tudo que me vinha à cabeça num comparativo entre estes países irmãos tão diferentes. Agora os nossos magistrados me ofertaram mais um motivo para olhar para o sul com inveja: o modo como se encara a história. Lá eles não tem vergonha de escancarar suas feridas, abri-las para medicá-las".

Imediatamente, ao ler as primeiras linhas de sua coluna, tive que concordar com o autor. Entretanto, à medida que minha leitura avançava constatei que o colunista era apenas mais um integrante de um sítio de notícias e formador de opinião que sofre da mesma lavagem cerebral que tantos outros aqui do Brasil sofrem: a total alienação pelos fatos históricos aliado a um profundo sentimento de solidariedade com os terroristas e criminosos que atuaram durante o governo presidido por militares. E segue:

"Aqui, numa “cordialidade” espúria, fazemos questão de esquecer nosso passado, de pôr panos quentes, de fingir que nada aconteceu, nada que manche nossa reputação ilibada, nossa alegria inata. Nossa sociedade civil quer ser harmoniosa, pacífica e passar ao largo dos conflitos, quer ser cordata e conciliadora."

Neste ponto, sou obrigado a concordar. Realmente muitos panos quentes foram colocados. A prova maior está no fato de que milhões de reais em indenizações estão sendo distribuídos a "perseguidos políticos" que mataram, estupraram e torturaram em nome do comunismo no Brasil. O silêncio catacúmbico dos militares, entretanto, prova que são eles e não a sociedade civil que quer ser harmoniosa, pacífica e passar ao largo dos conflitos, quer ser cordata e conciliadora.

"No dia 29 de abril, uma quinta-feira, o Supremo Tribunal Federal, órgão máximo do judiciário e responsável, em última instância, pela palavra final sobre o conteúdo e validade de uma lei, julgou, por imensa maioria (7 x 2), improcedente um pedido da OAB para que se revisse a Lei de Anistia e desse um parecer sobre a sua extensão. No entender dos meritíssimos, a Lei da Anistia têm vigência e validade, e nos impede de processar aqueles suspeitos de, em nome do Estado ditatorial militar, torturar, estuprar, matar."

E a recíprocra é verdadeira senhor Walter. A diferença é que as vítimas da chamada "direita" não recebem um mísero tostão, e quando muito um salário mínimo. Como é relativo o valor da vida humana para gente como o senhor, não?

"Com isso, garantimos a impunidade, a intocabilidade de pessoas que cometeram crimes durante a ditadura militar (1964-1985). De alguma maneira entenderam ser legal e legítima a lei de 1979. Como bem ressaltou Raphael Neves no seu blog, o STF agiu como tribunal político, sem Direito."

Ora, ora! Se o STF agisse como tribunal político (embora efetivamente o seja) a lei da anistia seria revista, e não referendada. É muito fácil julgar um dispositivo legal retirando-o do seu momento histórico. Intocáveis, impunes e inimputáveis são os que hoje estão no governo e cometeram atos de tortura, e violência durante a chamada "ditadura" e como pena, foram perdoados e anistiados.

"Na minha opinião, o STF é justamente isso, e sempre será. É a ultima ratio do ordenamento jurídico, que, por isso mesmo, não pode ser pura e simplesmente direito, tem que estar além dele. Longe de resolver a questão envolvendo a Lei da Anistia, a agrava."

Esta foi ridícula! E quem seria a última instância do ordenamento jurídico que não a Suprema Corte? A cúpula do PT e do Foro de São Paulo?

"Nós, defensores da revisão da Lei de Anistia, temos de admitir a derrota. E admitamos que foi uma derrota política. Vinte e cinco anos após o fim da ditadura militar, a maioria dos ministros acredita que todos os arbítrios, todos os crimes, sejam comuns, políticos ou de lesa-humanidade, devem ser enterrados numa vala comum, no esquecimento jurídico."

E é graças a esta anistia que hoje o senhor Walter pode votar em mais de um partido e ainda escolher a Dilma como presidente. Se a lei fosse revista, ela era uma que seria presa, esqueceu?

"Por quê? Por que nossos excelentíssimos ministros julgaram a ação improcedente? Por que países que tiveram suas ditaduras, suas leis de anistia, conseguiram revê-las e nós não?"

É verdade. Basta citarmos a URSS, o Camboja, o Vietnã, a China, Cuba... Opa, desculpe. Lá os opositores não eram presos não é seu Walter? Eram sumariamente fuzilados pelo tribunal revolucionário.

"Não podemos achar essa explicação em 1979, quando da promulgação da lei. Estávamos num regime de exceção, com boa parte da sociedade civil amordaçada, com um Congresso tutelado, embora livre. A relação era completamente assimétrica e a negociação foi o meio encontrado para começarmos a andar pra frente. Era, então, a única saída possível, era uma não-opção. O compromisso de então surgia como uma migalha ao famélico, como uma pessoa que “livremente” troca seu trabalho por comida, por mera subsistência."

Esta é engraçada. A boa parte da sociedade civil amordaçada, de fato, significa aqueles "estudantes" ou "artistas e jornalistas" não é mesmo? Mas o que faziam nas horas vagas hein seu Walter? Matavam, estupravam, sequestravam e roubavam. E o que acontecia com eles? Eram presos. Justo não é? E o que fez a malvada ditadura? Criou esta maldita lei da anistia que perdoou estes assassinos e terroristas. Me parece que está sendo ingrato não? Ou fazer um ser humano comer o próprio escroto antes de ser morto, sequestrar um embaixador, assaltar bancos e lojas são atos justificáveis porque são "contra a ditadura"?

"Quando o direito não nos protege de cláusulas draconianas, ao mais fraco resta conformar-se com o menor dano possível. Foi o que, taticamente, foi feito. Para tirar a mordaça aceitaram que a Oban, os monstros do DOI-CODi, aqueles que se compraziam tendo um corpo como objeto, fossem objetos da Lei da Anistia. Pergunto: Havia, naquele momento, outra opção?"

Havia outra opção sim: Os militares poderiam ter simplesmente fuzilado todo mundo, igualzinho Fidel Castro faz lá em Cuba.

"Não se trata de retroagir uma lei, isso seria realmente impensável, seria dotar o nosso Estado de ainda mais poder. Caberia ao STF agora entender as circunstâncias, compreender a abrangência da Lei de Anistia e o momento e contexto nos quais foi criada. Entender que o sadismo dos agentes de Estado, quando davam choques nos testículos dos presos, não pode ser coberto por um falso perdão. Entender que, sob a mira de um revolver, entregamos a carteira por prudência, mas podemos pedir que nos devolvam os documentos. Entender, enfim, que a força cria o arbítrio, mas não o direito."

Ou seja, o senhor deseja que a lei seja revogada. Eu adoraria! José Dirceu, Dilma Roussef, Genoíno, o falecido Leonel Brizola, Flávio Tavares dentre outros iriam apodrecer na cadeia e os familiares de gente como Lamarca deixariam de receber milionárias indenizações.

"O compromisso político de então deveria ser politicamente julgado. E foi. Perdemos a oportunidade histórica. Sinalizamos que o Estado brasileiro pode tudo. Sinalizamos que os agentes do Estado podem “suicidar” uma pessoa, sem risco algum. Quem, agora, podemos culpar pelo fracasso?"

Quer dizer que, se o Estado brasileiro pode tudo, estamos vivendo, neste preciso momento, uma ditadura correto? É... não está tão errado não.

"Em primeiro lugar, o próprio STF que entendeu (?) que tortura e assassinato são crimes conexos, estando, portanto, previstos na Anistia. Que, fazendo julgamento político, jurídico e moral (não há como dissociar os três substantivos) achou legítima as ações dos porões da ditadura."

Tanto quanto achou legítima as ações nos porões dos "aparelhos" onde o simples fato de desertar de uma facção política era motivo para punir com pena de morte o desertor, isto sem falar do que ocorria no interior dos mais longínquos rincões do país.

"Em segundo lugar, a OAB, que, num erro tático, imaginou que o STF com esses ministros, alguns dos quais sofreram com a ditadura, seria progressista o suficiente para julgar a legitimidade do perdão aos torturadores. Julgada improcedente, não há mais possibilidade de uma nova ação neste termos. Teremos que nos conformar com isso.
Por último, e não menos importante, a nós mesmos. Nós que evitamos o confronto, o “ir às ruas”, a pressão política. Nós que queremos que as coisas permaneçam iguais para que fiquem iguais. Que nos conformamos e esperamos, sempre, pelo maná descer dos céus."

E é esta atitude passiva do povo brasileiro e principalmente das Forças Armadas que permite a pessoas como o senhor falar estes tipo de asneiras, sem qualquer conhecimento histórico. Uma eterna repetição do mantra ideológico implantado na cabeça dos nossos "pensadores".

"Tenho inveja, muita inveja, dos hermanos que foram à luta para punir seus torturadores, para investigar aqueles que deram vazão aos seus desejos mais sádicos, aqueles que, por puro prazer, fizeram coisas inomináveis.
Lá eles prendem seus torturadores, comem uma belíssima carne, bebem bons vinhos, e ainda passeiam por uma cidade amistosa, convidativa. Lá, onde eles não tem acarajé e realmente acreditam que há jogador melhor que Pelé. Tudo bem, os argentinos não são perfeitos"

Não posso dizer que invejo os hermanos do Prata. Quem eu invejo mesmo é o senhor Walter Hupsel. Como é bom viver na ignorância de um mundo ilusório! Como é bom poder ler as notícias de jornais ou nossos livros de história sem fazer qualquer tipo de questionamento, apenas dizendo amém às falsas verdades ali postas. Como é bom poder escrever em um sítio de abrangência nacional com milhares de leitores diários que apenas engolem tudo o que é escrito, sem questionar, e ainda achando tudo lindo e maravilhoso.
 Mas, infelizmente, não cursei uma faculdade de História ou de qualquer Ciência Humana e não tenho o título de Bacharel reconhecido pelo MEC  emitido por qualquer instituição de nível superior do meio civil, é claro. Tive a idéia imbecil de buscar na leitura de livros e na pesquisa de fatos históricos as respostas para estas e tantas outras questões. Como resultado, fico me indignando com gente como o senhor, pelo simples fato de ter o conhecimento que, embora tão raso como uma poça d´água, é suficiente para desmentir completamente um artigo de um Colunista de Opinião do Yahoo.

5 comentários:

  1. Como é bom ver que existem pessoas que analisam os fatos históricos (recentes, é claro) e concluem que infelizmente aqueles que foram seqüestradores,ladrões de bancos, terroristas,bandidos enfim, hoje são homenageados, indenizados por seus crimes, e até eleitos a cargos IMPORTANTES.E estamos impossibilitados de reagir a essa injustiça, que afeta a todos os pobres brasileiros, lesados de todas as formas.

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    1. Acho que Lenilton Morato sofreu lavagem de cérebro na Escola Militar.

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    2. O que me parece estar ocorrendo é meramente um choque ideológico. Os fatos são os mesmos, as interpretações, diferentes: enquanto Hupsel lê a realidade sobre princípios revolucionários, de inspiração socialista, o sr. Morato prefere adotar um tom reacionário, mais apropriado para a direita liberal-conservadora. Ambos discursos são legítimos, mas não queiram assumir a posição de interpretação verdadeira da história. E não se trata de lavagem cerebral, na tentativa de desqualificar a opinião alheia. São mais duas opiniões desse mundo humano, demasiado humano, feito sempre de opiniões...

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    3. "Não posso dizer que invejo os hermanos do Prata. Quem eu invejo mesmo é o senhor Walter Hupsel. Como é bom viver na ignorância de um mundo ilusório! Como é bom poder ler as notícias de jornais ou nossos livros de história sem fazer qualquer tipo de questionamento, apenas dizendo amém às falsas verdades ali postas".
      Após ler seu texto, Lenilton Morato, penso que a crítica acima, feita ao sr. Hupsel, cabe perfeitamente ao autor dela. Aliás, sua contra-argumentação acrescentou muito pouco de científico para esclarecer as teses do Hupsel. Você fez comentários informais, que estão mais na ordem da fofoca do que da argumentação científica.

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  2. Não é fofoca, é a nossa triste realidade, ouvir comentários dessa natureza de um homem de confiança do Prefeito de São Paulo, aliás nesta atual situação política , virou ................................................................................................................
    ................................................lugar comum

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