quinta-feira, 27 de maio de 2010

Questão de Educação

Filho, se tu tirar um décimo a menos do necessário para passar de ano e a professora resolver te passar mesmo assim, eu vou à escola falar para te colocarem de recuperação" - Enilton Paim Morato, meu pai.

Nunca meus pais prometeram a mim ou meus irmãos qualquer tipo de recompensa por ter logrado êxito em um ano escolar. Nunca me deram qualquer presente como recompensa por uma nota alta ao final do ano letivo. Mas quando as notas não iam bem, as coisas mudavam. Adeus TV, futebol, brincadeira com os amigos até as notas voltarem ao normal. E foi assim que eu e meus irmãos fomos criados e ensinados a valorizar o estudo não para ganhar presentes ao final do ano, mas como a única maneira de se subir na vida. Ao mesmo tempo, vez ou outra, eu e meu irmão limpávamos a casa, tanto interna quanto externamente, e realizávamos praticamente qualquer sorte de serviço doméstico. E na escola, a orientação quanto às brigas com os coleguinhas era a seguinte: "meu filho, jamais comece a provocar ninguém, a bater em ninguém. Mas se tu chegar em casa machucado de uma briga e não tiver machucado o outro, vai apanhar em casa também! Se levou, tem que bater de volta!”.
Foi com meu pai, também, que realizamos nosso primeiro disparo com arma de fogo. Claro que não acionamos o gatilho aos 4 anos de idade, mas o vimos fazê-lo de perto. Poucos anos mais tarde,  realizaríamos o nosso próprio. Quando o pai retornava da caserna (Sargento de Material Bélico do Exército Brasileiro) era certo que eu iria amaciar um limão para que ele fizesse sua caipirinha. Mais tarde, eu mesmo a prepararia, ainda sem ter completado 10 anos (com ele sempre me dizendo que aquilo era ruim, que fazia mal; eu duvidei, ele me deu um gole puro e aquilo foi horrível mesmo). Quando chegava a noite, assistindo à televisão com um copo de cerveja, eu pedia para tomar a espuma. E assim fazia. Tanto eu quanto o meu irmão. Assim, na minha adolescência, comecei a compartilhar dos primeiros goles de cerveja e vinho dentro de casa nos almoços de domingo. A caipirinha ficaria para mais tarde.
Se meu pai fizesse isto hoje seria certamente acusado de incentivar a violência, o alcoolismo e o consumo de drogas. Seria acusado de explorar o trabalho infantil e de causar transtornos psicológicos irreversíveis ao não querer que passássemos de ano a qualquer custo. E se algum Conselho Tutelar o pegasse... Correria o risco mesmo de perder a guarda, minha e de meus irmãos. Isto sem contar nos castigos aplicados, sendo que ainda lembro-me do quão ruim é ajoelhar-se no milho e de como era pesada a mão de minha mãe quando tinha um cinto a mão! Por tudo isto, especialmente pelos castigos, só tenho algo a dizer: obrigado.
Ainda naquele tempo meus pais diziam: "vocês não estão fazendo tudo quanto é tipo de serviços gerais para que sobrevivam disto, mas para que saibam cobrar das pessoas que, se Deus quiser, vocês poderão pagar para fazê-los". Outra frase que ainda hoje lembro é de meu pai dizendo: "vocês só apanharão por duas coisas: mentira e teimosia". E assim foram tantos ensinamentos, castigos, e uma educação que trago desde o berço. Meus pais nunca me davam a resposta pronta. Se queria saber algo, que fosse buscar no dicionário ou nos livros. Para a legião de "ólogos" de hoje, esta educação vai frontalmente de encontro a tudo o que os teóricos apregoam para o bom desenvolvimento de um ser humano.
O resultado desta educação que meus pais me deram foi o seguinte: 1) nunca tive curiosidade de mexer nas armas de meu pai, que sempre me dizia onde ficavam, caso eu precisasse utilizá-las para a defesa própria ou de nossa casa. 2) Nunca tive curiosidade em experimentar qualquer tipo de drogas, mesmo o álcool. 3) Nunca provoquei qualquer briga, e só revidei uma única vez (foi uma vez só que aconteceu). 4) Sempre respeitei aos mais velhos e aos meus professores, estes como aos meus pais respeito. 5) Quando tirava notas baixas, não colocava a culpa nos docentes, mas na minha preguiça de não ter estudado a matéria. 6) Adquiri o hábito de ler e pesquisar além do que me era passado em sala de aula. 7) Aprendi que, para vencermos na vida existe apenas um caminho: trabalho; e tantas outras que seria necessário um livro para descrever.
Porque estou falando disto? Ora, porque não param de pipocar em nossos veículos de informações casos de desrespeito para com os professores em sala de aula e a ameaça de sua integridade física. Alunos não respeitam mais seus mestres, o que acaba com a autoridade do profissional em sala. O resultado são estudantes cada vez mais violentos que buscam apenas uma menção numérica em seus boletins escolares, e não à absorção do conhecimento. Não é surpresa que tenhamos hoje estudantes do ensino médio que são semi-analfabetos e universitários com a capacidade de raciocínio de um macaco. E qual é a solução de nossos governos espertinhos? A não repetência! Acreditem isto já acontece há um bom tempo em Porto Alegre, onde os alunos não podem ser reprovados para não ficarem traumatizados, o que evitaria, em tese, a evasão escolar.
Acontece que os sabichões do ensino e a massa intelectual e acadêmica em geral esquecem que estamos apenas colhendo os frutos de uma lavoura plantada por eles mesmos. Ao acabarem com a autoridade paterna e materna, destruir os valores familiares como a religiosidade, o respeito e a valorização do trabalho como forma única de se galgar sucesso na vida, eles acabaram com qualquer referência que possa guiar nossas crianças e adolescentes. Afinal, os pais de hoje são aqueles rebeldes sem causa de ontem que acham que todo mundo tem que ser tratado de maneira igual, mesmo sendo desiguais. Não educam seus filhos porque não querem ter este trabalho. E aqueles que ainda acreditam na educação conservadora de antigamente, correm o risco de serem denunciados e perderem a guarda de seus filhos.
Enquanto os pais não assumirem a responsabilidade na criação de suas crianças, o resultado só tende a piorar. A educação vem de casa, não é adquirida na escola, apenas complementada. Quanto mais o Estado impedir os progenitores de criarem seus filhos à maneira que lhes melhor parecer, mais nossa sociedade estará sendo destruída e transformada nesta massa amorfa que conhecemos.
Se o ensino está desta maneira, a culpa é dos próprios pensadores do ensino, que retiram a autoridade familiar e se preocupam em programar nas grades curriculares matérias como educação sexual e planejamento familiar, assuntos que são flagrantemente destinados a serem ensinados pelos pais, e não pelo Estado.
Mas este ano tem copa, ano que vem tem carnaval, e o governo dá camisinha de graça pra todo mundo poder trepar com quem quiser. Preocupar-se, para quê?

Um comentário:

  1. Hoje 27 anos lembro-me das palmatórias, cintos e mãos seguidos de castigo restritivo; infelizmente meu pai não tinha um diálogo que acelerasse a reflexão e o amadurecimento, mas só tenho a agradecer a postura de meus pais, e também de uma professora que me fez acordar ainda na 6ª série, em minha educação.
    Muitos que conheci com minha idade já se foram se perderam um drogas, tráfico e roubo.

    Uma coisa que sempre comento com conhecidos é: Os pais, que amam seus filhos, não podem dar uma surra mas a polícia pode descer o cacetete.

    Ja citei que o país é dominado por perversos e idiótas?

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