sexta-feira, 2 de julho de 2010

Os Novos Feudos

...o que vemos são milhares de bolsas, abonos, cargos públicos, funcionalismo público, empresas públicas e até sindicatos (!!!!) que são pagos com o dinheiro que nós, os palhaços trabalhadores, deixamos compulsoriamente para o grande elefante brasileiro.

O filme Gladiador, mesmo sendo uma história de ficção, possui em seu roteiro algumas verdades históricas acerca do império romano que muitos historiadores negligenciam, com o objetivo de exaltar este período clássico em detrimento do que o seguiu, a Idade Média ou "das Trevas". Na película, verificamos que o general Maximus, assim como todos (ou a grande maioria) os integrantes da nobreza romana, tinham como propriedade não casarões urbanos, mas retiros rurais. Desta maneira, eram os sítios ou fazendas, e não os imóveis urbanos, que representavam efetivamente a aquisição de status por parte de um cidadão romano. Na área urbana ficava a grande maioria da população, desde os trabalhadores braçais até a baixa nobreza ou funcionários dos escalões mais baixos do império. Nobres trabalhavam na cidade e iam descansar em seus bucólicos imóveis, onde além deles, habitavam também os criados e escravos.
Esta liberdade de movimentação quer da zona rural para a urbana, quer dentro da zona urbana por parte de seus moradores, que usufruíam das facilidades e do serviço público do império ou da iniciativa privada, era possível porque Roma conseguia cumprir o papel primordial de qualquer Estado: prover a segurança. E o que aconteceu quando a segurança imperial não mais pode ser mantida? Os invasores bárbaros empurraram as fronteiras cada vez mais para a capital, até a sua invasão e saque no século V. Não mais era garantida a segurança para os habitantes das terras romanas. A população dos outrora seguros e pulsantes centros urbanos não tinham mais condições de habitar as cidades, ou mesmo de se deslocar entre sua área urbana para as propriedades rurais sem ter que arriscar sua pele. Os únicos lugares que poderiam prover certo grau de segurança eram justamente os sítios e fazendas da nobreza romana. E foi para estes locais que todo mundo correu. Surgiam os feudos, não como uma maneira de escravizar pessoas como alguns acham, mas como modo de preservar a cultura, a ciência, o conhecimento e o próprio povo romano. Em troca do trabalho de seus servos, o senhor feudal dava-lhes aquilo que o estado não poderia mais dar: segurança. Fora dos limites feudais, a morte era praticamente certa. E assim se organizou a sociedade medieval.
Progressivamente, foram surgindo feudos cada vez maiores, onde o maior era soberano do menor. Pouco a pouco foram criadas zonas de segurança que permitiam o deslocamento de comerciantes entre os castelos. E foi para manter esta segurança que, novamente, os grupos humanos se uniam em torno daquele que possuía a maior riqueza, e poderia montar um exército que assegurasse a... Segurança! E assim surgiram os reinos e os estados nacionais modernos. Ninguém exigia do soberno-mor, o rei, educação, saúde ou entretenimento. Exigiam apenas que o território fosse mantido a salvo dos invasores externos. Dentro das propriedades do reino, o senhor feudal era livre para determinar suas leis e a iniciativa privada da burguesia garantia o entretenimento e o lazer, ficando a cultura a cargo dos mosteiros católicos que protegeram o conhecimento clássico das invasões estrangeiras.
Mas você leitor, deve estar se perguntando: sim, e daí? Disto eu já sabia! Mas o que poucos notam é que exatamente neste momento, novos feudos estão sendo construídos tanto na área rural, quanto na área urbana. E seu processo de evolução de sua construção é por demais parecido com o que aconteceu desde a Roma antiga. Explico.
Quando fui a Porto Alegre, verifiquei que inúmeras construtoras estão implantando os bairros planejados. Confesso que não sabia disto, e certamente a situação não fica restrita à capital gaúcha. São sempre espaços amplos com todo o tipo de serviço e facilidades educacionais aliados à contratação de uma empresa de segurança privada. Um sonho de consumo não! Imagine criar seus filhos num bairro permanentemente guarnecido por seguranças, com vigilância interna rodeado por áreas de difícil acesso e que contenha clube, escola, academia, farmácia... Enfim praticamente tudo! Confesso que ao conhecer um destes projetos achei a idéia simplesmente fantástica! Mas aí veio uma faísca de raciocínio e... Conclui que os bairros planejados são... feudos modernos. E qual é a razão para a demanda por estes espaços urbanos estar tão aquecida? Adivinhem... SE-GU-RAN-ÇA. É segurança, aquele negócio que é responsabilidade do Estado prover. Aquela coisa que é a razão de ser de um governo, de um país. Pois este Estado faminto de impostos não consegue prover a única coisa que deveria! Se lá na Idade Média o servo pagava a seu senhor pela segurança, hoje nós pagamos a uma empresa privada pela segurança de nossos bairros planejados e ao governo para prover esta mesma segurança. Mas o que vemos são milhares de bolsas, abonos, cargos públicos, funcionalismo público, empresas públicas e até sindicatos (!!!!) que são pagos com o dinheiro que nós, os palhaços trabalhadores, deixamos compulsoriamente para o grande elefante brasileiro. Pagamos serviços que, além de não serem essenciais se fossem extintos e colocados para a iniciativa privada causariam apenas o aumento de sua eficiência e a diminuição da carga tributária desumana que nos assola.
Mas ao invés de garantir nossa segurança, nosso Big Brother fica preocupado em dar bolsas-esmolas, em apoiar ao MST, dar dinheiro a sindicatos trabalhistas e manter uma política econômica que beneficia os grandes bancos. Tudo isto, aliado a um discurso retórico, faz com que pensemos que está tudo bem. Afinal, podemos pagar para morarmos em casas com grades, alarmes, cães, vigilantes, monitoramento eletrônico, verdadeiras fortalezas. Outros podem pagar para morarem em condomínios fechados, ou em bairros fechados. Parece positivo, mas é ilusório. Segurança é dever e obrigação do estado, aliás, essencialmente, esta é sua única obrigação. Uma obrigação que não é cumprida por ele.
Enquanto assassinos, estupradores, traficantes, seqüestradores e assaltantes ficam soltos pelas ruas, parques e espaços públicos, nós ficamos entorpecidos e alienados dentro de nossas luxuosas prisões que são, em última análise, os novos feudos do século XXI.

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