domingo, 5 de setembro de 2010

Enlatados dos USA

O que ocorre em nosso país é que a população está tão acostumada, tão anestesiada a acompanhar programas vazios e sem sentidos, repetitivos e pueris que qualquer coisa que os faça pensar minimamente se torna algo chato e desanimador.

Sou telespectador dos seriados televisivos norte-americanos, ou melhor, estadunidenses. E assisto a estes programas por um motivo muito simples: são infinitamente superiores em relação a qualquer coisa que se passa na tela da televisão nacional. Comédia, ação, drama, ficção científica, polêmicos ou politicamente corretos, todos conseguem a façanha de serem melhores do que qualquer novela tupiniquim, mesmo o pior deles. Não me sinto frustrado ou irritado por isto. Sinto-me sim um  privilegiado de ter acesso a uma programação de qualidade, coisa que não acontece por aqui.
No Brasil, o gênero predominante é a telenovela, com suas tramas repetitivas e que oscilam conforme a maré da audiência. E o resultado final é a mesma estrutura básica em qualquer trama. O fato de serem diárias limita enormemente a capacidade de aprofundamento da história, e mesmo da personagem. Em contrapartida, o fato das séries made in USA serem exibidas semanalmente lhes dão uma maior profundidade narrativa que não encontra paralelo nas produções brasileiras. Não há por estas terras o surgimento de personagens complexos como House, da série homônima, Patrick Jane de The Mentalist, Bill Henrickson, de Big Love ou Monk. Mesmo nossas comédias são paupérrimas e sequer podem competir com o humor politicamente incorreto dos desenhos The Simpsons, American Dad ou Family Guy. Isto sem falar de Seinfeld, ou Friends.
O que pode explicar, então, o fracasso retumbante de audiência quando estas e outras séries são televisionadas para cá? Seria esta a prova de que a nossa programação é superior àquela dos irmãos do norte? Obviamente que não.
O que ocorre em nosso país é que a população está tão acostumada, tão anestesiada a acompanhar programas vazios e sem sentidos, repetitivos e pueris que qualquer coisa que os faça pensar minimamente se torna algo chato e desanimador. Qualquer trama mais aprofundada ou uma comédia que seja politicamente incorreta é rechaçada. Acostumamos-nos a sermos medíocres, a não pensarmos. Não queremos ter o trabalho de olhar um programa que instigue a nossa mente. E, como resultado, vemos a qualidade de nossa produção cultural cair em um poço de mediocridade sem fim.
Resta-nos o teatro onde, pelo menos em tese, os espetáculos podem ter uma profundidade um pouco maior do que os programas oferecidos via televisão. O problema é que a grande maioria das peças de sucesso são obras dos mesmos atores, diretores e produtores televisivos, o que transforma os palcos em uma extensão dos estúdios de televisão. Os diretores, atores e roteiristas que ousam apostar em uma obra densa e profunda pagam o preço de sua audácia através de baixa divulgação e pouca propaganda, além do baixo público que continua preferindo o feijão com arroz televisivo.
O intrigante é que aqueles que acompanham os enlatados dos USA são os mesmos que preferem os espetáculos densos, profundos e de qualidade. E são criticados por isto.

Um comentário:

  1. Disseste tudo. O povinho brasileiro não pensa, não digo que seja por não querer pensar, mas, sim, por não saber mais pensar. Não à toa temos mais de 70% da população brasileira como analfabeta funcional. A população não sabe mais o que é bom ou ruim, está alienando-se a cada dia num lazer cada vez mais passivo e dominante.

    ResponderExcluir