segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O Teatro Gaúcho Merece "Muita Merda"!

...justamente a produção cultural gaúcha não é valorizada pelos gaúchos. O exemplo mais claro, são os teatros. Peças locais, de qualidade não têm a valorização do seu próprio público. Mas basta uma produção do eixo Rio-São Paulo, que tenha um ator de uma "Malhação" da vida e... voi-lá!

É curioso esta pretenciosa ambição do gaúcho em sentir-se orgulhoso das coisas de sua terra. Cantam o hino do Estado quando é tocado o Hino Nacional. E acham isto a apoteose da rebeldia. Não sei bem o que passa na cabeça daqueles que têm esta atitude. Preferem comprar um produto local a ter que se dobrar a marcas "forasteiras". Orgulham-se de uma capital atrasada, retrógada, onde uma orla lamentável é ovacionada como sendo uma das maravilhas do mundo, só porque possui um belíssimo pôr-do-sol (aliás, a orla não merece o ocaso que tem). Pensam que isto é demonstrar independência, que são estas as formas de expressar o seu "diferencial" em relação "ao império". Ilusão de provinciano.
O que marca a identidade, a independência, o diferencial de um grupo social em relação a outro é a sua cultura, seu folclore. E é aí que os revoltadinhos baixam a crista, e mostram-se frangos, não galos. Porque justamente a produção cultural gaúcha não é valorizada pelos gaúchos. O exemplo mais claro, são os teatros. Peças locais, de qualidade não têm a valorização do seu próprio público. Mas basta uma produção do eixo Rio-São Paulo, que tenha um ator de uma "Malhação" da vida e... voi-lá! Ingressos vendidos, e casa lotada. Por pior que seja a produção, se ela vem de fora (e tem o status da Globo) todos vão assistir "ao grande espetáculo"... Enquanto isto, temas locais, religiosos  e comportamentais muitas vezes são explorados de forma brilhante por companhias teatrais aqui mesmo do Estado. Mas o público não corresponde. E pouco a pouco, o espaço para os atores de nossas cidades vão minguando. Praticamente a produção cultural restringe-se à Porto Alegre e, numa escala menor, Pelotas. Somente a música tradicionalista gaúcha parece ainda resistir aos modismos do centro do país.
Como consequência os teatros vão minguando. Vemos os espaços públicos destinados a esta atividade cada vez mais deteriorados. A população se afasta  dos artistas de sua cidade e cada vez mais vai perdendo o gosto pela cultura local, especialmente pelas artes cênicas. E acabam perdendo oportunidades de assistirem a espetáculos de qualidade, que poderiam muito bem estar nos grandes palcos de Rio e São Paulo. Como exemplo, cito duas peças espíritas que recentemente encerraram suas temporadas: "Uma Vovó no Além" e "Caminhos que Cruzei, Amigos que Encontrei". São espetáculos de temática espírita mas a plateia não se sente numa sessão de doutrinação espírita. E este é, para mim, o grande mérito dessas produções. Mais interessante é que são gêneros diferentes. A primeira, uma comédia. A segunda, um drama. Claro que existem momentos de um e de outro em ambas. E o espectador, quando se dá conta, está completamente envolvido pela história, quer ele já tenha contato com o espiritismo ou não. A profundidade de "Caminhos" é realmente impressionante. Uma história densa sem ser complicada. Prende a atenção do início ao fim. Não me surpreende que tenha tido um bom público, mesmo com dez anos de estrada. Mas poderia ser mais valorizada, assim como todo o teatro gaúcho. Acreditem, existe vida inteligente nos palcos do Rio Grande.
Não que todas as produções de fora do Estado sejam ruins, não são. Mas existem muitos espetáculos bons sem a grife da Globo. Valorizá-las é exaltar a produção cultural, diretores e atores locais, fundamentais para ficarmos livres da imposição cultural "estrangeira". Não que não devêssemos assitir produções de fora. Mas deveríamos apoiar muito mais o que é produzido de bom em nosso Estado. Talvez assim, os teatros sucateados das cidades do Rio Grande do Sul possam voltar a serem, novamente,  fontes de prazer, entretenimento, lazer e discussão na comunidade local. Só temos a ganhar com isto. Ou não é melhor o jovem e o adulto gastarem 10, 30, 50 reais por um ingresso de teatro a pagar para terem maconha, cocaína ou crack?

 

Um comentário:

  1. Poxa...parabéns pela crítica...quando esse povo gaúcho, pseudo-politizado, se der conta disso; aí sim seremos uma nação com cultura e virtudes...

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