sábado, 22 de setembro de 2012

Comemorações Farroupilhas

No dia 20 de Setembro foi comemorado o dia do gaúcho, data magna do calendário do Estado do Rio Grande do Sul. Entre acampamentos, desfiles e CTGs, foram celebradas as  tradições, cultura e folclore do estado mais meridional do país. Comemorou-se com orgulho ímpar a história daqueles que nasceram na terra onde o minuano sopra mais forte, onde o inverno pinta campos de branco e onde o pampa se perde no horizonte. Entretanto, na marcha incessante do tempo, perdeu-se no horizonte da história o real significado do 20 de setembro, o que realmente ele significa e, pasmem, não é o tradicionalismo gaudério o principal mote da data inicial da Guerra dos Farrapos.
Então o que representa o 20 de setembro? Apesar das divergências entre historiadores acerca das razões ideológicas que levaram à eclosão da guerra, uma coisa é certa: lutou-se contra a opressão do Império do Brasil sobre a província gaúcha e pelo aumento de sua autonomia. Quer seja pela sobretaxação do charque ou pela liberdade de se escolher seu presidente, o povo gaúcho se uniu e pode desafiar as tropas imperiais no conturbado período da regência. De todas as revoltas daquele período esta foi a única que, mesmo militarmente derrotada, atingiu seus objetivos. Mas como?
Dentre os motivos que levaram os farroupilhas a obterem do Império o que almejavam está a liderança de sua elite latifundiária. Ao contrário do que muitos querem nos fazer acreditar, não foi o povo que se rebelou contra o opressor, mas sim a camada mais esclarecida da sociedade (produtores de charque) que eram bastante prejudicados com a política fiscal imperial. Não obstante, as demais revoltas do período não tiveram êxito por terem sido seus líderes pessoas comuns, do povo, sem qualquer liderança que pudesse aglutinar suas forças. No Rio Grande do Sul, ao contrário, a elite do charque possibilitou não só a união em torno de um objetivo comum, mas também o financiamento adequado para a campanha de guerra.
O sucesso da revolta se deu devido ao ideal maior de liberdade de seus líderes, o que não significa necessariamente um desejo de independência. A autonomia da província é que era efetivamente o motivo real da guerra. O desejo da separação política foi muito mais um arrroubo emocional do general Netto do que um objetivo a ser alcançado. Separar-se do Império de nada adiantaria se as taxas de charque continuassem abusivas, visto que era o Brasil o maior consumidor dos produtos produzidos na província. Assim, ser independente não ajudaria muito a melhorar a situação da recém criada república. Ao final da revolta, militarmente derrotados, os farroupilhas conseguiram o perdão do Império e menores taxas para o charque, além de poderem escolher o presidente provincial. Uma vitória, sem sombra de dúvida.
Assim, notamos que o culto à tradição gaúcha não significa celebrar o que realmente motivou a luta na Guerra dos Farrapos. Dever-se-ia cultuar a coragem da elite gaúcha em questionar as arbitrariedades imperiais e lutar por sua liberdade e autonomia. Este é o verdadeiro espírito farrapo: a luta pela liberdade e não um acampamento tradicional, cujo maior deles é montado na cidade que nunca caiu em mãos rebeldes, mantendo-se fiel ao Império. O gauchismo, as demonstrações da lida campeira tem muito pouco em comum com o real significado do 20 de Setembro. Se honrássemos a memória daqueles que tombaram em solo gaúcho na defesa de sua autonomia, deveríamos questionar o porquê da União reter em suas mãos um poder político, tributário e econômico infinitamente superior ao que detivera o Império do Brasil, a ponto de manter os estados membros da federação em um verdadeiro cativeiro político, econômico e fiscal. 
Hoje a autonomia do Rio Grande do Sul e, por extensão, de todos os demais estados é meramente simbólica. Os recursos são todos centralizados em Brasília que os redistribui seguindo critérios obscuros e políticos, retirando dos entes federados aquilo pelo qual lutaram os farroupilhas: a autonomia. Assim, para mantermos viva a chama que impulsionou os farrapos, não é preciso dias e mais dias de acampamentos  crioulos. O que poderíamos fazer é questionar o excessivo centralismo da União e combatê-lo, como fizeram nossos antepassados. 
Perpetuar e cultuar as tradições, a cultura e as "coisas" do Rio Grande é algo essencial e sempre muito bem vindo. Mas atribuir aos farrapos a razão pela qual devemos fazê-lo não só é equivocado como também denota que estamos perdendo ano a ano a real memória daquela que foi a maior das revoltas internas do Brasil.

2 comentários:

  1. Como já é praxe: um excelente texto para ser lido e pensado. Parabéns!

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  2. Na prática, o que menos se tem hoje são motivos para comemorar. E o pior é toda essa demagogia populista hoje tentando apagar a importância da elite nesse movimento...

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