segunda-feira, 6 de maio de 2013

Autoprobantes

Quando qualquer pessoa apresenta uma nova explicação para determinada demanda, espera-se que esta advenha de algo fundamentado em provas concretas, estudos realizados, observações e pesquisa aprofundada, a fim de que possa fundamentar o que se está propondo. Além disso, é necessário que a proposição apresentada seja confrontada com um argumento em contrário, de maneira que possa ser realizado o contraponto que resultará na validação ou refutação da teoria, o que demandaria uma revisão completa de todo o estudo até se chegar a uma conclusão definitiva.
Nas terras tupiniquins, e em grande parte do mundo, entretanto, ocorrem algumas afirmações que simplesmente não precisam ser provadas ou confrontadas. São conclusões baseadas não em um estudo científico, mas em alinhamento ideológico. Desta maneira, tudo o que está consoante com o revolucionário torna-se autoprobante, ou seja, sua simples afirmação basta para sua validação.
Ao afirmar que os EUA apoiaram o "golpe de 64" (tem até gravação no cinema), que impediu que Jango fizesse as reformas que levariam o Brasil a dar um grande salto, o pseudo historiador não precisa provar nada. É lugar comum: o governo militar foi fruto da articulação dos EUA para impedir que o Brasil crescesse. Momento histórico, Guerra Fria, influência russa, a própria divisão que existia dentro do Exército, nada é levado em conta. Foram os americanos e ponto final! Prova? É autoprobante... Mas mesmo assim colocaram umas gravações da CIA para dar um quê de veracidade...
Quando alguém diz que "o aquecimento global é culpa do homem que emite gás carbônico para a atmosfera", nada mais precisa ser dito: é verdade. Pouco importa os fatores históricos e naturais, a dinâmica do clima, os períodos de aquecimento e resfriamento que ocorreram ao longo da história ou o ciclo de atividade solar. É culpa do homem e pronto! Como conseqüência, grupos insistem na desindustrialização do planeta. Os culpados: os EUA e sua indústria poluidora, claro... Já da China, nem uma vírgula.
Algo semelhante ocorre com algumas outras afirmações: "vivemos um surto de homofobia! Vejam as estatísticas, gays estão morrendo". Pronto, mais um argumento autoprobante. Não importa se foi um gay que matou outro gay por qualquer motivo, se morreu um homossexual porque estava sendo assaltado, seqüestrado ou por bala perdida. Não importa, sequer, que a população de gays vítima de crimes contra a vida seja infinitamente menor que a de heterossexuais. Negativo. A verdade já foi determinada: temos homofobia. 
Ainda na questão gay, temos ainda a famosa: "a pessoa nasce gay". Mais uma verdade fabricada. Pouco importa se não existe nada que aponte para um gene gay, ou se a conduta sexual possa ser fruto da experiência psicológica de cada um, ou mesmo uma patologia. Aliás, neste último, os cientistas estão proibidos de pesquisar a respeito, visto que já foi determinado que o homossexualismo não é doença. Prova? Não é necessário. É autoprobante.
Quanto à criminalidade, mesmo caminho. A culpa não é da legislação frouxa, de penas que não se cumprem, de presídios lotados ou da escolha do indivíduo em se tornar criminoso. Absolutamente. A culpa é do Estado, da sociedade. O criminoso é apenas alguém desesperado que tenta sobreviver a este maldito ser que fez com que ele se tornasse malvado. Afinal, o ser humano nasce bom, a sociedade é que o corrompe já dizia Rousseau... Mas se o homem nasce bom, e a sociedade é formada por homens, a sociedade deveria ser boa... Não importa, já foi determinado e é autoprobante: criminosos são coitadinhos, vítimas das pessoas malvadas que compõem a sociedade.
Muitos outros exemplos podem ser citados como sendo afirmativas autoprobantes. São justamente estas que tornam qualquer papagaio repetidor de teorias não comprovadas, mas ideologicamente alinhada com o que é revolucionário, passa a ser denominado de intelectual. 
Diga que vivemos uma epidemia de homofobia, que a ditadura militar matou, perseguiu e torturou pobres estudantes e artistas, que o homem é culpado pelo aquecimento global, que leis mais duras não inibem o crime, enfim, qualquer coisa que sirva à estratégia revolucionária e, parabéns. Acabas de se tornar um típico especialista brasileiro, angariando o respeito da academia e da imprensa. Se precisas provar o que dizes? Não... É tudo autoprobante.


Nenhum comentário:

Postar um comentário