quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Limão e a Lima


"- Uma coca-cola, por favor.
- Gelo e limão?
- Sim, por favor. Bastante limão.
Quando o garçom retornou, um copo borbulhante de líquido preto foi deixado sobre a mesa. No seu interior, pedras de gelo transparentes dançavam com rodelas verdes da fruta ácida que deixava a bebida ainda mais refrescante. O calor era intenso e a sede insuportável. Nada melhor do que uma coca com gelo e limão para revigorar-lhe as forças."
O texto reproduzido acima não foi extraído de nenhum outro lugar; é fruto da pobre imaginação deste que vos escreve. Entretanto, tenho certeza que ao citar a famosa "coca-cola com gelo e limão" a imagem que veio à mente da grande maioria dos leitores foi aquela descrita acima. Nada fora do normal, não fosse por um detalhe: o que chamamos de limão, na verdade é uma espécie de lima. Dentre os frutos aos quais nos acostumamos a chamar "limão" somente um é-lo de fato: o siciliano. 
Repetiu-se tanto que as limas são limões que hoje poucos sabem diferenciar estes daquelas e, se por ventura alguém ousar dizer que o limão taiti, cravo ou galego não são limões, é capaz de ser escorraçado e atirado ao ostracismo. Previsível em um país onde títulos e consenso comum se sobrepõem ao conhecimento real.
Mas porque falamos de frutas? Ora, porque estamos acostumados a levar lima por limão, e isto tem se tornado cada vez mais comum. E aí daquele que ousa desmascarar as limas infiltradas! Sofrerá a ira dos defensores da hegemonia "limonesca".
Deixando a quitanda de lado voltemos à realidade tangível. E o conceito de hoje é democratizar. A palavra está na moda, não há dúvida. Nosso diligente e amável governo, dirigido pelo partido-dinastia e sua corte, quer, com as "melhores das intenções", dar voz e poder ao povo. Para isto, propõem a democratização geral de tudo o que nos cerca: crédito, transporte público, segurança, mídia, imprensa, educação. Tudo precisa ser... Como eles dizem... Postos a serviço da população; abertos ao povo. Afinal, democratizar é isso: dar ao povo a oportunidade de intervir. Só que não!
Nas terras tupiniquins, democratizar significa estatizar. Submeter entidades independentes como a mídia e mesmo as escolas à batuta do maestro governamental, de forma que tudo ocorra conforme o Estado queira. O marco regulatório da imprensa é o exemplo mais gritante: submete ao crivo do governo as pautas jornalísticas (como se estas já não fossem suficientemente submissas). Democratizaram também o cinema e a produção cultural (especialmente a TV por assinatura), liberando crédito de empresas estatais como a Petrobrás e o Banco do Brasil que, claro, precisam passar pela análise da ANCINE. "É censura, mas fala diferente", como diria aquela personagem da Escolinha do Professor Raimundo.
Na esfera econômica, a democratização fica evidente quando da liberação de crédito mais barato para as famílias de baixa renda. Sob subsídio estatal, os bancos vão financiando os "minha casa minha vida", "minha casa melhor" e tutti quanti, promovendo uma falsa prosperidade e contrariando a questão do risco que envolve qualquer operação financeira. A propaganda oficial faz-nos crer que existe uma verdadeira revolução econômica em curso, que as famílias mais pobres agora podem adquirir bens e serviços que antes não poderiam aspirar. Não deixa de ser verdade. Porém os pobres não deixaram de ser pobres, apenas se tornaram endividados; é o crescimento baseado na dívida (e na distribuição de bolsas). Ou seja, não são criadas condições para promover o ganho real de renda e o aumento da poupança do cidadão, mas sim do tamanho de suas contas a pagar. Acho que já vimos filme semelhante nas terras do Tio Sam...
Como não poderia deixar de ser, democratizar virou slogan. Os protestos de junho passado que o digam. As reivindicações por meia tarifa, tarifa zero e outro sem-número de gratuidades nada mais é do que a tentativa de "democratizar" o transporte público, como se este fosse sem custo para quem o administra. Os manifestantes querem a participação da sociedade e dos "estudantes" junto às empresas de transporte público; e o que isto significa? Mais intervenção estatal. Afinal, o governo (democraticamente eleito para representar o povo), ao meter o bedelho em toda e qualquer instituição ou empresa estará, segundo os "especialistas", democratizando aquele serviço ou aquela empresa. 
A realidade, entretanto, está muito distante de ser esta. Democratizar não é dar à população, ao povo, o poder para influenciar e administrar o que quer que seja, mas aparelhar política e ideologicamente o que se deseja. Quando um governo toma para si o poder de gerir qualquer coisa, não é o povo que o faz, mas uma elite partidária. Estando em jogo o futuro do partido e desta própria elite, a corrupção, a ineficiência e o descaso são inevitáveis.
O grande problema é que as pessoas simplesmente não enxergam o óbvio, obstruídas por anos de doutrinação por parte da escola, da mídia e do meio cultural.
E continuam pedindo limão e levando lima.







2 comentários:

  1. Confesso que aquele inicio já me deu uma vontade de uma coca com limão! kkkk
    Tu disse uma verdade, o povão não tá menos pobre, está tão somente mais endividado!
    Quero ver quando essa bolhar estourar.....

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