terça-feira, 10 de setembro de 2013

As Coisas do Povo.

“Pedágio a 1 km” anunciava a placa na rodovia. Mas... Espere um momento... O Tarso disse que os pedágios tinham sido desativados. Bom, pelo menos a rodovia estará em boas condições. E assim segui viagem rumo à capital gaúcha passando por Santa Cruz do Sul. Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com a nova empresa cobradora de pedágios: a EGR, Empresa Gaúcha de Rodovias. Então me lembrei: o trotskista estatizara os pedágios (e a rodovia já começa a dar sinais de deterioração). Cinco reais e cinqüenta centavos, por duas vezes pagos nas praças de pedágios da rodovia estatizada. Ou seja, eu estava pagando ao Estado para manter uma rodovia cujo meu IPVA deveria manter. A raiva foi imediata... E ficaria pior com a justificativa para o estupro estatal: “devolver à sociedade, ao povo, o controle e a posse da rodovia”.
Há cerca de 20 dias, li uma coluna do jornalista Paulo Sant’Ana que versava sobre a situação da saúde no Brasil e de como o dinheiro do povo estava sendo mal empregado por nossos governantes. Segundo o articulista, é preciso que os governos, independente de qualquer orientação política, tenham mais cuidado com o uso do dinheiro público, ao qual reivindica como sendo dinheiro da população brasileira, recolhido através de impostos.
Embora aparentemente desconexas, as duas situações forçaram-me a fazer uma pergunta: o que é do povo? Como podemos afirmar que uma empresa pertence ao povo? Como podemos assegurar que o dinheiro pertence ao povo? Enfim: o que são as coisas do povo? A resposta surgiu-me tão rápido quanto os questionamentos, como em um insight: as coisas só são do povo quando estão com o povo; e nos dois casos, nem a EGR e tampouco o dinheiro dos impostos pode ser considerado “do povo”. São de um governo.
Quando o Estado passa a possuir uma empresa, este empreendimento deixa de ser da população e passa a pertencer a uma cúpula partidária que detém o poder naquele momento. Assim, nossas empresas estatais como a Petrobrás, os Correios, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, por exemplo, são mobiliadas e administradas por um governo, e não pela população.  Detendo tamanho poderio econômico, o governo pode efetivamente comprar apoio político por intermédio da cessão de cargos gordamente remunerados a seus aliados, fazendo com que as empresas estatais sejam ineficientes, corruptas e majoritariamente deficitárias. Aqui se encaixa a tal EGR: uma empresa pertencente a um governo que nasce parecendo ser “da sociedade”.
Desta maneira, uma empresa privada é muito mais “do povo” do que aquela tocada pelo governo.  O simples fato de não estar sujeita a conchavos políticos e não depender de eleições para determinar seu presidente já fala por si. Além disso, qualquer cidadão pode ocupar um cargo em uma empresa privada, bastando ter competência e vontade para trabalhar, sem precisar estar filhado a este ou aquele partido. Ademais, o acesso que o usuário tem a uma empresa privada é infinitamente mais fácil. Suas reclamações são ouvidas com muito mais interesse e atenção, visto que a sobrevivência da empresa depende da satisfação de seus clientes e de sua rentabilidade, ao passo que a estatal é subsidiada pelos impostos que todos pagam (isso sem falar no fato de que, na iniciativa privada não há estabilidade, ou seja, o mau funcionário é despedido). No caso da EGR, por exemplo, o cidadão que nunca passar pelas rodovias que esta empresa administra estará pagando por ela através dos impostos recolhidos em todos os produtos e serviços que consome.
Falando em impostos, eis mais uma coisa que não é do povo: o dinheiro dos impostos. Ora, o dinheiro que pertence ao povo não é aquele recolhido compulsoriamente pelo Estado, mas aquele que está no bolso do cidadão. De forma análoga ao que acontece com as empresas estatais, o dinheiro dos impostos pertencem ao governo, mais especificamente ao partido que está no governo.  Este dinheiro é recolhido com a desculpa de que “o Estado tem que garantir educação, saúde, segurança, previdência, etc". Muito mais coerente é deixar o dinheiro dos impostos com seus verdadeiros donos: o povo. Como? Deixando os recursos financeiros nas mãos da população para que ela decida no que irá aplicá-lo (saúde, educação, cultura, previdência), sendo estes serviços fornecidos pela iniciativa privada. Mas aí dirão “ah, mas tem gente que não consegue administrar seu dinheiro”. Bom, aí é questão da responsabilidade que cada pessoa tem que ter com o seu futuro, com a sua vida.
Retirar o Estado da vida pública é devolver ao povo o que é do povo. Porém impor uma drástica redução das atribuições estatais de maneira que sobre o estritamente necessário (isto é, a segurança) não é um caminho fácil. Afinal, quanto mais atividades econômicas e sociais estiverem sob o controle estatal, mais facilitado fica o trabalho daquelas correntes políticas que querem se perpetuar no poder.
Difícil também é deixar que o governo, além da segurança, cuide apenas das questões essenciais da educação (ensino médio), da saúde e infra-estrutura, porque se criou no país uma mentalidade distorcida de que algo só pertence ao povo quando é do Estado. Infelizmente, nossa população não sabe andar com suas próprias pernas, sempre recorrendo ao governo para solucionar suas demandas, fechando uma espécie de espiral que tende a estatizar cada vez mais todos os aspectos das relações humanas.
Assim, cada vez mais o povo está sendo desprovido de suas “coisas”, sob o pretexto de que o roubo que sofre serve para afirmar que a coisa roubada lhe pertence.

Um comentário:

  1. Eu não tenho a menor dúvida que essas rodovias serão jogadas ao limbo! E essa EGR será mais um cabide de empregos e ponto de desvio de dinheiro, tal qual fez o Daer, que mudou o nome pra Dnit pra tentar mascarar a roubalheira!

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