quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Rachel Sheherazade, Rolezinhos e a Interpretação Torpe de um Mestre do Yahoo.

Como podem verificar aqui no blog, não costumo contrapor textos de outros autores. Mas algumas vezes deparo-me com coisas tão absurdas que simplesmente não consigo deixar passar. Foi o que aconteceu com o post “Nós vamos invadir sua praia” do mestre em Ciência Política pela USP e Professor de Relações Internacionais da FASM, Walter Hupsel, publicado em seu blog no Yahoo. Seu alvo: Rachel Sheherazade e seu comentário sobre os tais rolezinhos. O Original do Walter Hupsel está em itálico. Vamos ao texto.

Há algumas semanas Rachel Sheherazade (daqueles comentaristas que fazem Bill O'Reilly parecer sensato e ponderado), uma âncora que anda por si, fez um comentário que descrevia bem a situação dos rolezinhos.

Logo no começo de seu post, o autor trata de comparar Rachel Sheherazade com Bill O’Reilly, numa tentativa infantil de desacreditá-la. Faz isto porque O’Reilly foi eleito pela esquerda uma espécie de inimigo a ser combatido, visto que suas posições são conservadoras, seu programa um sucesso (e disponível na TV a cabo no Brasil) e sua argumentação é geralmente contundente (os “pensadores” da esquerda brasileira são incapazes de contra-argumentar contra o que quer que seja). Muito parecido, pois com Sheherazade. 
Esta introdução, na verdade, dará o tom do post de Hupsel, que deixará de lado o que foi dito pela âncora do SBT e irá partir para a difamação pessoal visto que não possui argumentos sequer para questioná-la (e quando o faz, cai em alguns erros que veremos a frente). Por fim, adjetiva-a como “uma âncora que anda por si”. Sinceramente não entendi. Aliás, entendi: ela é independente. Se o objetivo do colunista yahooziano foi denegri-la, acho que o tiro saiu pela culatra.
“Os shoppings se popularizaram no Brasil porque se tornaram uma alternativa de compra e lazer para quem buscava se-gu-ran-ça. Pois foi exatamente a violência, o caos urbano que forçou o consumidor a abandonar o comércio de rua, as praças públicas, o cinema, teatros, restaurantes e migrar para espaços fechados, vigiados. Mas agora até esse refúgio foi violado. O que fazer? (...) devemos defender o direito dos arruaceiros de se reunir em locais privados, sem autorização, tocando o terror, afastando as famílias e intimidando os frequentadores? Ou só vamos tomar uma providência quando os arrastões migrarem das periferias para os shoppings de luxo?”
Para qualquer pessoa minimamente alfabetizada, não há dúvidas sobre qual mensagem a jornalista quer passar sobre os “rolezinhos”. Resumindo em duas frases sua opinião: “Até quando continuaremos tolerantes com a baderna e a violência? Será preciso que ela atinja os shoppings de luxo para que façamos algo a respeito?” Mas não é isso que o mestre (uháláhh) Walter Hupsel entendeu... Continuemos
Por que a cito? Porque, como certo filósofo afirmou com toda a propriedade, se queremos entender as mudanças devemos prestar bastante atenção àqueles analistas que são refratários a ela, que, por algum motivo, perdem poder e/ou privilégio com o girar da roda. São eles que, melhor que ninguém, tem a acuidade precisa pra enxergar o fenômeno.
Agora ele resolve citar um filósofo, além de assassinar o português (sou péssimo de português, mas “se queremos” indicando o pretérito imperfeito do subjuntivo, foi foda), para tentar contrapor a opinião de Rachel. Na citação do filósofo desconhecido, apontada por Hupsel, somente aqueles analistas que são contrários ou rebeldes às mudanças (refratários) e que perdem poder e/ou privilégio com o girar da roda (com a mudança) tem a acuidade precisa para enxergar o fenômeno. Ora; Walter Hupsel (e seu filósofo anônimo e mal de língua portuguesa) basicamente endossa a opinião de Rachel. Afinal, os rolezinhos representam uma mudança de comportamento. Ou seja, um bando resolve invadir um shopping center provocando correrias, furtos e outros pequenos delitos, fugindo completamente do que poderia ser considerado um comportamento normal. Quem são os “analistas refratários a esta mudança”??? Tchã-ram! Analistas como Rachel Sheherazade! Hupsel, no momento em que tenta desqualificar a opinião da jornalista, acaba por endossá-la; e nem se dá conta disso.
Pois bem. Está, na fala daquela senhora, tudo explícito. Todo rancor, raiva e medo. Toda segregação e privilégio.
Como é que é? Rancor, raiva e medo? Bom, os dois últimos pode até ser. Raiva pelo fato de nossa sociedade ser cada vez mais tolerante com os delitos e medo de ser vítima deles. Agora (sentimento de) rancor, segregação e privilégio? Onde podemos inferir tais características no texto de Sheherazade? Ou no vídeo original? É porque ela é enfática e firme em suas palavras e atitudes? É meu caro... Existem pessoas (milhões) com ideais e opiniões diferentes das tuas; a maioria da população por exemplo. Chato não ter mais a supremacia da imprensa nas mãos da esquerda não é mesmo? (apesar dela ainda deter a superioridade).
Para começar a fala, Rachel usa “popularizar”, se tornar popular. Reparem bem que a ideia de ser popular é bem restrita, já que alcança apenas a parte “boa” da sociedade, do povo ordeiro e de bem (preferencialmente bem vestido).
Segundo o colunista, a ideia de popular de Rachel “apenas alcança a parte boa da sociedade, do povo ordeiro e de bem”. Mas isso é óbvio. Ou agora qualquer marginal tem que ter o direito ou liberdade de fazer o que quiser que “ta tudo na paz”? Na visão Hupseliana, um traficante, seqüestrador, assaltante, estuprador, homicida e o raio que o parta deve fazer parte da popularização. Afinal se ele ironicamente critica o fato de Sheherazade restringir a ideia de que um shopping se tornar popular “é bem restrita, já que alcança apenas a parte ‘boa’ da sociedade, do povo ordeiro e de bem”, significa dizer que ele, Walter Hupsel, defende que estes espaços sejam ocupados também pelos bandidos ora! (que são as “pessoas de mau”, porém integrantes da população tadinhos!).
Finalmente, a cereja do bolo vem com o “(preferencialmente bem vestido)”.  Aqui o termo é utilizado para passar a mensagem de que Rachel Sheherazade diz que quem mora na periferia (o pobre que foi lá dar um simples “rolé”) deve ser proibido de entrar no shopping. Mas me explica uma coisa mestre: (uháláhh) em que momento Rachel disse isso? Onde ela afirmou que os pobres, os jovens que moram em favelas, não podem se reunir para irem a um shopping? No texto dela, transcrito pelo próprio colunista do Yahoo, está escrito: “Mas agora até esse refúgio foi violado. O que fazer? (...) devemos defender o direito dos arruaceiros de se reunir em locais privados, sem autorização, tocando o terror, afastando as famílias e intimidando os freqüentadores?” Onde está a discriminação social, implícita em seu texto, atribuída a ela? Non ecxiste! Mas sabe o que existe? A discriminação social do Walter Hupsel. Foi ele que, ao atribuir a idéia de que Sheherazade é preconceituosa (por intermédio da expressão “preferencialmente bem vestido”), revelou o preconceito que ele mesmo possui. Parabéns Hupsel. Aprendeu direitinho com tio Lênin não é: “acusem-no do que você é”.
Imediatamente depois, a princesinha persa engata um evento que, na fala, apenas encarna, como se descesse dos céus ou subisse do inferno. O caos urbano e a violência não têm causa, são eventos. E foram estes eventos, indomáveis, que forçaram a popularização dos shoppings, transformados em verdadeiros refúgios.
Princesinha persa... Mais uma tentativa de denegrir a âncora do SBT. Neste trecho, Hupsel tenta fazer-nos acreditar que Rachel não sabe que a violência e o caos têm suas causas. O argumento que ele usa? O fato de Sheherazade atribuir a popularização dos shoppings e sua transformação em verdadeiros refúgios à violência. Mas e não foi? Ao lado da praticidade e da conveniência, a segurança é fator responsável sim pela popularização dos shoppings (e dos condomínios fechados também). Foco Hupsel! Ela não está tratando sobre as origens da violência, mas sim da popularização dos shoppings. Coisas diferentes, percebeu?
E foram violados por quem? Por aqueles que, vindos da periferia, são arruaceiros. Novamente atentem para o fato de que ela pede providências apenas pelo risco dos “arrastões” saírem da periferia e invadirem o templo do shopping.
Novamente, o colunista segue tentando carimbar Sheherazade com o esteriótipo de reacionária-direitista-preconceituosa. Os shoppings foram “violados” por arruaceiros. Foi isto o que ela disse. A parte do “vindo da periferia” é cortesia do pensamento preconceituoso de Hupsel. Quanto ao pedido feito por ele para que “atentem para o fato de que ela pede providências apenas pelo risco dos ‘arrastões’ saírem da periferia e invadirem o templo do shopping”, nota-se que ele tenta distorcer as palavras de Rachel para passar a ideia de que ela apenas pede providências quando a violência invade o “templo do shopping”. Ela não disse isso. “Ou só vamos tomar uma providência quando os arrastões migrarem das periferias para os shoppings de luxo?” Foram estas as palavras que ela disse! Para qualquer ser minimamente alfabetizado a ideia da colocação da jornalista é cristalina: é preciso tomar providências contra a violência desde sua origem, e não esperar que ela atinja os espaços de luxo para, só então, fazê-lo. Será que é tão difícil assim ler um texto mestre? (huáláhh)
Ficando por lá, tudo bem, diz nossa elite.
Se puder, me apresenta esta tal elite aí... Melhor, pode deixar que eu mesmo irei apresentá-la a ti. Nossa elite meu caro, é formada pelos quadros do PT e seus aliados, artistas, acadêmicos, empresários e jornalistas ideologicamente comprometidos com o projeto da esquerda. Inclusive vossa senhoria! Sinto lhe informar, mas Sheherazade não faz parte dela.
Rachel, tomada aqui como mero exemplo, não é uma analista ou intérprete da situação, apenas uma porta-voz. Com isso pode ela rechear seu comentário de atos falhos e, assim, verbalizar o que outros mais argutos tentariam esconder.
No parágrafo acima, substitua o nome Rachel pelo nome Walter Hupsel.
Reproduzo um trecho: “Há muito tempo a elite nacional decidiu se isolar do resto do Brasil, viver sua vida que se almeja sossegada e segura. Encontrar-se apenas com seus pares. O que ela quer não é erradicar a pobreza, mas mantê-la longe dos seus olhos. (...) Os 'bárbaros', deixados do lado de fora, continuarão a forçar as portas e, vez por outra, sua presença será sentida. E a resposta em rede nacional será sempre esquizofrênica, alienada, perplexa, como que assumindo sua ignorância do entorno, não entendendo o porquê, e que, numa ingenuidade quase autista pergunta: O que eu fiz [para merecer isso]?”
Este outro texto do Walter Hupsel não é objeto deste post. Deixei porque está no texto original
Sem mais.


Ufa!