quinta-feira, 20 de março de 2014

O Cálice Vermelho

A censura que houve durante o período do governo militar pode-se dizer que foi, no mínimo, inócua. Uma ou outra música tinha sua letra alterada ou era vetada pelo censor. Algumas notícias eram vetadas ou editadas, mas, cedo ou tarde, elas acabavam sendo publicadas. Os motivos para que alguma obra fosse vítima da censura não é do meu conhecimento; uma coisa, porém é certa: se a intenção era evitar ou impedir a disseminação dos ideais socialistas e comunistas (de esquerda em geral) conclui-se que foi um fracasso retumbante.

A prova mais cabal desse fracasso é a nossa atual geração de intelectuais, jornalistas e professores que promovem uma doutrinação ideológica há pelo menos três décadas sem que pudessem encontrar maior resistência. E não me venham com a desculpa do exílio! Até onde consigo enxergar, não existe um único documento ou processo deste tipo produzido pelo governo na época.  Aqueles que partiram para Londres, Roma, Paris ou Nova Iorque (todas cidades porco-capitalistas) o fizeram pelo simples motivo de não querer enfrentar o processo legal por seus supostos crimes. Ademais, contavam com um bom suporte financeiro para poderem viver nessas cidades (quem os sustentou?).

Censura é assunto por demais delicado. Há os que dizem que ela não pode existir em hipótese alguma. Há aqueles que a defendem como forma de proteger a sociedade de idéias potencialmente nefastas. Sobre esta utilidade da censura, convém lembrar o que disse Yuri Bezmenov quando de sua palestra a uma classe de estudantes norte-americanos acerca do processo de subversão moral soviética. Bezmenov, como ex-agente de propaganda soviético, fala que a censura (em determinado estado do processo de subversão) pode impedir que o país alvo seja completamente destruído e dominado por uma ideologia alienígena. É precisamente por este motivo que o bloco soviético sobreviveu por tanto tempo. Tudo o que vinha do mundo ocidental (ou capitalista, como queiram) era sumariamente censurado.

Na luta contra a figura do censor no Brasil, Chico Buarque e Milton Nascimento compuseram a música Cálice, uma crítica ferrenha à censura no país. Apesar do posicionamento político dos autores (apoiar um regime que praticou a censura como nenhum outro), não podemos deixar de reconhecer a qualidade da composição. E o cálice, de vinho tinto de sangue, precisava ser afastado. O engraçado da história é que o período da República onde mais este cálice se fez presente foi na ditadura Vargas. Existiu naquele período um departamento especificamente criado para vetar tudo aquilo que contrariasse o que o ditador considerasse errado e, ao mesmo tempo, exaltá-lo (procedimento tipicamente socialista e fascista). Ninguém jamais protestou contra este cálice.

A mão de quem serve é determinante (para nossos intelectuais) na aceitação ou não do cálice. Quando ele é servido por mãos da dita “direita”, mesmo que quase inofensivo, torna-se algo imediatamente hediondo e nefasto. Quando a mão é camarada, cessam-se os problemas e a bebida deixa de ser amarga para se tornar uma dose da qual se deve beber e agradecer pela sua existência. É exatamente isto o que vivemos hoje. Não é à toa que, no cálice vermelho, a censura se torna doce. É preciso que aqueles que bebem de seu conteúdo não sintam que estão sendo silenciados. O vinho tinto de sangue foi substituído pelo doce licor do politicamente correto, que esmaga opiniões e cala as vozes daqueles que ousam questionar o status quo.


Estamos vivendo um dos períodos de maior censura de nossa história. O problema é que não percebemos. Sequer as Forças Armadas escapam. 

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