segunda-feira, 19 de maio de 2014

Trem Para Milão

O dia era frio, mas não tão frio como deveria ser, disse-me o gondoleiro. Os cinco graus do inverno veneziano fê-lo mesmo afirmar que "este ano está quente". Não vimos neve dessa vez, a não ser durante o trajeto de trem entre Milão e Roma. Depois, nada. 
Após cerca de quatro dias em Veneza era chegada a pior hora do viajante: voltar para o Brasil. Forçosamente, deveríamos voltar a Milão para tomarmos o avião que nos traria de volta ao país da Copa das Copas. Na estação de Santa Lucia, tomamos o trem rumo a Milano Centrale, destino final de um bela estadia na Itália. A composição da Frecciabianca partiu no horário marcado. 
A viagem corria bem, não fosse a janela estranhamente embaçada do nosso lado, o que forçou-me a ver a paisagem pela abertura oposta. Nada de anormal, tudo estava tranquilo... Até que, da frente do vagão, uma mulher negra e alta resolveu sair de seu assento e acomodar-se na poltrona junto à janela que me permitia vislumbrar o mundo lá fora. Vi que ela ficou curiosa pelo fato de eu estar olhando por essa janela e, em inglês, começou a puxar assunto acerca da infelicidade da minha janela estar embaçada. Descobri que ela era funcionária do governo norte-americano, economista; eu disse a ela que era brasileiro. E aí... Bom, aí ela resolveu perguntar-me sobre o que eu pensava de nosso querido governo e dos preparativos para a Copa e as Olimpíadas.
Não me surpreendeu o fato de ela não ter convicção de que Brasília era a nossa capital ou que o português era nosso idioma oficial. Mas outras coisas me surpreenderam e me deram a convicção de que, ou os gringos não estão nem aí para nós ou eles acreditam em tudo o que sai das fontes oficiais. Disse-lhe que, no Brasil, não existe trens como aquele que estávamos viajando e que nossas estradas além de insuficientes e mal planejadas eram em sua maioria precárias e cheias de buracos. Contei-lhe sobre a compra de votos do bolsa família, da estatização excessiva de nossa economia, dos pesados impostos a que somos submetidos e da subserviência de nossa imprensa em relação aos desmandos do governo. Sobre a saúde, respondi que, embora possuíssemos um programa universal (SUS) este era ineficiente e que seus usuários, na grande maioria das vezes, ficam dias, semanas ou meses esperando para marcar um exame ou fazer uma intervenção cirúrgica. 
Com certo espanto, ela indagou-me sobre como um turista pode se comunicar no Brasil. A resposta: use o português. Espanhol, se for falado devagar, nós entendemos também. Inglês? Forget it! Nossos estudantes não aprendem uma língua estrangeira como o inglês e encontrar um falante deste idioma entre taxistas, lojistas e funcionários do governo é algo muito raro. Ademais, o brasileiro sempre vai querer levar vantagem em tudo, muito embora se esforce em ajudar. E a força polícial? São corruptos? ela me perguntou. Existem casos, respondi. A corrupção no Brasil está infiltrada em praticamente todo tecido estatal e os policiais não fogem à regra embora a maioria seja honesta. Acontece que no meu país, quando um bandido é preso, ele sai antes da delegacia do que o policial que o prendeu. A legislação brasileira é extremamente tolerante com o crime. E aí o policial acaba se desmotivando. Ela arregalou os olhos, incrédula. Mas não sabemos nada disso nos EUA, me falou. Pois é.
Mas o pior, continuei, não é termos uma infraestrutura risível, um sistema educacional dos piores do mundo e uma saúde que beira o caos. O pior é que, todos os anos, mais de 50 mil pessoas morrem por conta da violência. Veja bem, 50 mil pessoas, fora as mortes decorrente de doença e causas naturais. No Brasil, as pessoas parecem que estão anestesiadas pela violência. Quando se tem a notícia de um homicídio ou ouvem-se tiros na vizinhança damos isso como normal. Não nos chocamos mais com essas coisas porque nossa população se acostumou a elas. Não possuímos no meu país a principal razão de ser do Estado: segurança... Oh my God, exclamou, num misto de choque e incredulidade. Sequer tinha noção dessas coisas... 
Pois é. Este é o país que vai  sediar nos próximo dois anos, os dois maiores eventos esportivos do mundo. Sinceramente, eu gostaria muito de dizer que estou sendo exagerado, mas não. Obras atrasadas e que não serão feitas a tempo são os menores de nossos problemas... Bom, chegamos a Milão. Uma boa viagem de volta aos EUA, desejei. Pra vocês também, respondeu-me. 

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