domingo, 13 de julho de 2014

O Sucesso da Copa

O fracasso previsto para a Copa do Mundo de Futebol no Brasil que finda este final de semana não aconteceu. O colapso da segurança, dos transportes e da organização à brasileira não veio, para o deleite de governistas e entusiastas. As “aves agourentas”, que afirmaram e previram o fiasco, são confrontadas com o fato que, se não foi perfeita, a Copa saiu a contento. E realmente saiu. Teve organização, segurança e transporte público para os torcedores. O que tinha tudo para se tornar um símbolo da incompetência nacional em organizar grandes eventos reverteu-se para mostrar a capacidade brasileira em rapidamente adaptar-se, superar as dificuldades e, com um sorriso no rosto, bem receber e conduzir os visitantes.
Ocorre que, para que as coisas andassem, o Brasil utilizou-se da sua incrível habilidade de tapar o sol com a peneira. Se houve organização na Copa ela se deve ao fato de que não foi o governo brasileiro, ou qualquer outro órgão nacional, responsável por ela: foi a FIFA quem coordenou, recrutou, treinou e planejou a execução da Copa. Tinha até território próprio sob seu controle! Alia-se a isto uma massa de voluntários dispostos e solícitos em conduzir e resolver os problemas dos torcedores e pronto! Uma bela organização.
Na questão do transporte público as soluções adotadas foram simples, baratas e eficientes: dia de jogo não tem expediente, diminuindo sensivelmente a demanda pelo serviço. Alocam-se os meios para a condução dos torcedores ou mesmo cria-se uma norma determinando que somente os possuidores de ingressos para a partida de futebol possam utilizar o sistema. Problema resolvido. Transporte para os turistas garantido.
No que tange à segurança não houve dificuldade em garanti-la para as praças onde se realizaram os jogos. Ora! O governo tem, a sua inteira disposição, trezentos mil homens do Exército que não hesitarão (e não hesitaram) em atender ao seu chamado para desempenharem funções completamente alheias a sua destinação constitucional, mesmo que não exista qualquer garantia ou segurança jurídica para seus integrantes. Sorte dos militares que não houve muitos confrontos contra os meliantes. Gente do calibre da Mary of Rosary adoraria processar praças e oficiais por reprimirem seus amiguinhos bandidos. Acontece que, em uma cidade onde homens com fuzis, carros blindados e viaturas operacionais fazem a segurança, a bandidagem se recolhe. Adiciona-se a convocação de efetivos extras das polícias militares e temos nas ruas das cidades-sede um aparato de segurança pública como “nunca antes na história desse país”, mas que se desvanecerá ao som do apito final.
Além de tudo isso, temos a visão que o turista tem do Brasil. Qualquer pessoa que venha a nosso país sabe que não encontrará aqui a organização alemã ou a pontualidade inglesa. Eles sabem que nossos aeroportos são ruins, que as estradas são ruins e que a segunda língua nacional é o “mimequês”. Aliás, muitos pensam que aqui só existem silvícolas a andar nus pela selva. Assim, qualquer lembrança de algo que remeta a uma sociedade minimamente civilizada já satisfaz o visitante estrangeiro. Finalmente, a única coisa que o turista espera do Brasil ele encontrou em todos os lugares: a putaria generalizada. Não havia como, pois, a Copa ser o fiasco que muitos previram.
A questão, porém, não é se a Copa seria ou não um sucesso. Sucesso seria e foi. Qualquer pessoa em sã consciência não poderia questionar o êxito do evento, justamente pelas razões apontadas acima. O que se criticou foi utilizar-se da justificativa da Copa para que o recurso público, o dinheiro que vem do bolso de cada trabalhador brasileiro, fosse empregado indiscriminadamente no financiamento de estádios e na execução de obras de infra-estrutura que deveriam melhorar as condições de nossas cidades-sede e que tiveram seus valores constantemente aumentados em relação à previsão inicial. Mais: foi preciso a Copa (e agora as Olimpíadas) para que o governo começasse a pensar em fazer esforços para, acreditem, realizar melhorias para a população. Ou seja: aquilo que o governo deveria fazer, com ou sem esses eventos, passou a ser mais uma justificativa para a realização destes! Mas será que foram realizados?
Os dias de jogos tornaram-se um verdadeiro tormento para os habitantes não-torcedores das cidades-sede. Todo o esforço da administração pública foi destinado à condução dos entusiastas do esporte. Assim, duas situações ocorreram: aqueles que foram/vão aos jogos são presenteados com uma organização eficiente e transporte público adequado enquanto as pessoas normais são obrigadas a tomar rotas alternativas e realizar desvios constantes a fim de se evitar o “território FIFA”. Aqueles que queriam tomar o transporte público tiveram ainda mais dificuldades, visto que todo o esforço foi direcionado para a condução dos turistas. Como, geralmente, em das de jogos nas cidades-sede o expediente foi reduzido ou simplesmente eliminado, as pessoas não se deram conta de que melhora efetiva na estrutura das cidades não aconteceu. Apenas o esforço de toda a cidade foi concentrado em um único ponto, dando a falsa ilusão de que o transporte coletivo, por exemplo, era funcional.
Certamente, passada a euforia, as pessoas dar-se-ão conta de que, efetivamente, o legado da Copa ainda não chegou. Os aeroportos continuam caóticos, o transporte público deplorável, a segurança inexistente. Isso sem considerar o sistema de saúde, a educação, etc. O cronograma das obras não foi cumprido e virtualmente todas elas foram “inauguradas sem estarem prontas. Não obstante, as investigações acerca dos evidentes superfaturamentos, se ocorrerem, nos darão a dimensão exata do quão grande foram os desvios de recursos e os enriquecimentos ilícitos que tornaram muitos políticos e empresários ainda mais ricos. Justamente por isto que fui, e sou contrário à realização da Copa no país. Não precisamos de uma Copa do Mundo para investir em segurança, infra-estrutura e saúde. Isso são coisas básicas que um governo deve fazer, quer seja diretamente quer seja através de uma política mais liberal que garanta à iniciativa privada fazê-lo.
Ao som do apito final acordaremos do sonho do Mundial e voltaremos à dura realidade nacional. Como naquela música de Tom Jobim: “A gente trabalha o ano inteiro/ por um momento de sonho pra fazer/ A fantasia de rei ou de pirata ou jardineira/ E tudo se acabar na quarta-feira”. A referência é ao Carnaval, mas cabe muito bem à Copa. Terminada a festa, enfrentemos a realidade nua, crua e crônica que, de tão quotidiana, já não nos causa espanto: serviços públicos inexistentes, criminalidade generalizada, saúde em coma e infra-estrutura ridícula. Pelo menos o sinal da internet deve melhorar, visto que não é mais necessário destinar a pífia banda nacional para os centros de imprensa espalhados pelo país.

E o pessoal do “não vai ter copa”, do “passe livre”, os Black Blocks? Ora, eles também não incomodaram como parecia que iriam fazer. Os protestos quase não ocorreram e nem iriam ocorrer. O objetivo desses grupos não é atingir a Copa. Não foi para isso que foram às ruas. São peões no tabuleiro de xadrez e já desempenharam o seu papel. Mas isso é assunto para o próximo post.

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