terça-feira, 31 de março de 2015

Sim. Hoje Devemos Comemorar.


A historiografia brasileira possui uma característica, um vício, um tanto quanto canalha. Acostumou-se a denegrir, sujar e inverter fatos históricos com objetivos obscuros que visam, principalmente, a imposição de determinado pensamento em detrimento da verdade. Desde a colonização portuguesa de nossas terras é assim. A Monarquia brasileira, com o advento do regime republicano, passou a ser literalmente alvo de chacota por parte daqueles que deveriam estudá-la e expor ao público como realmente foi aquele período de nossa História.
Pouco a pouco, a memória daqueles que efetivamente viveram o período foi sendo apagada e o país criou o que chamamos de “História Oficial”, dando àquele momento histórico ares de tirania e retrocesso. Não foi bem assim. Ademais, a simples existência de uma História oficializada retira a sua credibilidade porque é contada de acordo com os interesses daqueles que usurparam o poder naquele momento. Trata-se, pois, de um processo de falsificação que perdura em nossos historiadores até os dias de hoje. Não é surpresa que os melhores livros de história tenham sido escrito, em sua grande maioria, por “não historiadores”.
O que acontece é que nossas instituições de ensino superior deixaram, há muito tempo, de serem vetores de pesquisa e inovação para se tornarem disseminadoras de ideologias. Formam militantes e não pesquisadores sérios e isso irá se refletir em todos os campos do conhecimento. E na ciência histórica não haveria de ser diferente. Inúmeros são os mestres e doutores que o são apenas por força de titulação, mas que em matéria de conhecimento não passam de meros replicadores. A pesquisa séria foi abandonada e o que temos de produção científica, especialmente na área das ciências humanas e sociais, não passa de repetições de conceitos rigidamente incorporados ao que determinam as diretrizes oficiais.
Dentre os fatos históricos que vêm sendo vítimas de todo esse status quo aqueles que determinaram a ocorrência da contrarrevolução de 31 de março de 1964 são os mais atingidos. Décadas de silêncio por parte dos que vivenciaram o período somado à infiltração gramsciana no sistema educacional, mídia e na cultura possibilitaram a distorção do que ocorrera naqueles dias. Sustentados por títulos acadêmicos nacionais ou mesmo obtidos em universidades estrangeiras, autores como Juremir Machado da Silva obtém a credibilidade para escreverem a respeito. Entretanto, ao lermos os trabalhos escritos com olhos de maior rigor científico e histórico, verificamos que não passam de instrumentos destinados a desqualificar as motivações que levaram a sociedade a pedir, naquele momento, o socorro junto às suas Forças Armadas para a manutenção da democracia no país.
Há que se diferenciar, porém, a contrarrevolução do regime que a seguiu. Fazê-lo é fundamental para que se entenda e estude o período. E no dia de hoje, deve-se exaltar (embora impedidos oficialmente) a ação daqueles que salvaram a democracia no país, possibilitando, inclusive, o surgimento das agremiações político-partidárias e instituições que procuram a todo custo distorcer os fatos históricos que levaram os generais de 1964 a impedirem o mergulho do Brasil no totalitarismo socialista.
Para entendermos o porquê da ação militar é necessário que voltemos no tempo e nos coloquemos diante da situação política e estratégica na qual o mundo estava mergulhado. Vivíamos, àquela época, a chamada Guerra Fria, onde dois sistemas disputavam o poder a nível mundial. De um lado, tínhamos o regime socialista liderado pela extinta URSS (aliás, é um erro muito comum tratar o socialismo ou comunismo como sinônimo de URSS ou a Rússia. Esta foi e é apenas o centro de planejamento estratégico, visto que o comunismo é um sistema internacionalista, supranacional).  Do outro lado, tínhamos a Civilização Ocidental, calcada em valores judaico-cristãos e na livre economia de mercado, cujo representante são os EUA. Essas forças antagônicas estavam em constante disputa para manter e conquistar territórios sob sua influência.
Enquanto o socialismo ceifava milhões de vidas e promovia a proliferação da pobreza, o bloco ocidental prosperava. A economia de livre mercado e os valores judaico-cristãos possibilitaram o surgimento de novas tecnologias para a produção de alimentos e faziam com que os indivíduos conseguissem ascender na pirâmide social por meio de seu próprio esforço. Mesmo com a ocorrência da pobreza, esta era muito menor do que a observada no bloco oposto. Além disso, os cidadãos gozavam de plena liberdade de opinião, expressão e do direito de ir e vir (este negado à população que vivia sob o regime socialista que, além de ser impedida de abandonar o país, necessitavam de passaportes internos para circular em determinadas áreas do território). A prosperidade do mundo ocidental era tamanha que permitiram aos EUA doarem milhares de toneladas de alimentos para a URSS.
Os países que viviam o socialismo sofreram duros ataques às liberdades individuais, especialmente aquelas relativas à propriedade, opinião e religião. Qualquer cidadão que fosse identificado como adversário do regime era sumariamente executado. O estrangulamento do livre mercado por meio de um capitalismo de Estado juntamente com a coletivização forçada dos meios de produção mergulhou o bloco socialista no caos. Milhões de vidas foram ceifadas pelas perseguições, execuções e, principalmente, pela fome. Ocorreu uma divisão clara entre os membros do Partido, integrantes da máquina estatal que detinham toda a riqueza, e os proletários miseráveis que mal tinham condições de sobreviver, estes a esmagadora maioria da população.
Muito embora alguns desses países alegassem possuir um regime democrático, as eleições ocorriam com partido único. Ou seja, aqueles que podiam votar possuíam apenas uma única opção ideológica. Os opositores eram declarados inimigos do povo e excluídos do processo, quer seja sendo executados ou enviados para “campos de reeducação” onde exerciam trabalhos forçados até a sua exaustão. Os Gulags soviéticos são exemplos dessa prática e serviram de base para que os nazistas construíssem seus campos de extermínio. Era essa a realidade do regime socialista, escondida a todo custo pela propaganda oficial do partido.
Ocorre que um país não se torna socialista da noite para o dia. Mesmo quando a tomada do poder pelos revolucionários ocorre de forma violenta como foi observada na Revolução Bolchevique, é preciso que sejam tomadas algumas medidas para que o regime se sustente no tempo. Isso inclui ações como a destruição da Igreja, quebra da hierarquia das Forças Armadas, reforma agrária, política e econômica que resultam basicamente: no fim de valores morais inerentes para a convivência harmônica entre os cidadãos; quebra da coesão no meio militar, fim da propriedade privada; decisões políticas tomadas por sindicatos, movimentos sociais e ONGs ligadas ao partido que ascende ao poder; e o sufocamento do livre mercado por intermédio da regulação estatal, respectivamente. Assim, o partido passa a deter o controle total da vida do indivíduo.
No Brasil, desde a década de 1920, o Partido Comunista do Brasil (PCB, sob influência direta dos comunistas russos) vinha espalhando seus ideais entre os trabalhadores e estudantes. Uma rede de agentes treinados desde Moscou, como Luís Carlos Prestes, irá desembocar na primeira tentativa de tomada de poder pelos comunistas em 1935, no que ficou conhecido como a Intentona Comunista. Apesar do insucesso do movimento, os ideais de Karl Marx permaneciam acesos e causando efervescência no país, mesmo o PCB passando a ilegalidade.
Os ideais utópicos da igualdade comunista acabaram por seduzir políticos como Leonel Brizola e, posteriormente, João Goulart. Com a vacância da presidência em 1961 (fruto da renúncia de Jânio Quadros) Jango assume o poder e começa a estreitar relações com países socialistas, notadamente a China. Vale-se ressaltar que, naquele momento, a China ainda contabilizava os cerca de 50 milhões de mortos vítimas do “Grande Salto” de Mao Zedong, que impôs o comunismo naquele país em 1949. A influência de Brizola, que queria a revolução pela luta armada, soma-se a essa situação, fazendo com que a sociedade brasileira acordasse para o perigo que a rondava e buscasse, junto às Forças Armadas, a garantia da manutenção do Brasil como um país democrático e livre do flagelo comunista.
Os discursos de Jango afirmando que faria as reformas de base (que significavam simplesmente a transformação do país em uma república comunista) e a incitação pela quebra da hierarquia e da disciplina no meio militar acabaram por confirmar as suspeitas das reais intenções deste presidente. Foi devido ao apelo da sociedade brasileira, da imprensa, da Igreja e daqueles que sabiam o que significava ser um país comunista que aconteceu a contrarrevolução. O dispositivo militar de Jango (havia aqueles que apoiavam a permanência do presidente) foi desmantelado sem derramamento de sangue e o Brasil se viu livre da ameaça.
Esses foram, muito resumidamente, os motivos que levaram à contrarrevolução de 31 de março de 1964. Os editoriais das revistas e jornais da época retratam o clima de crise e tensão que vivíamos naqueles dias, bem como o regozijo popular quando da vitória das forças opositoras a Jango. A imprensa tinha plena liberdade ideológica naqueles dias e a Igreja no Brasil ainda não tinha aderido às ideias comunistas. Tínhamos uma oposição verdadeira no campo político e na academia, muito diferente do que acontece nos dias de hoje. A soma desses fatores dava à população a consciência do perigo que se aproximava, dando-lhe condições de reagir em tempo hábil.
Incapazes de contestar esses fatos, nossos historiadores e intelectuais resolveram partir para uma abordagem diferenciada. Passaram a creditar o golpe a uma conspiração arquitetada pelos EUA para impedir que Jango assumisse a presidência. Inúmeros livros (e até um filme) foram lançados com o intuito de provar que a CIA esteve diretamente envolvida com os militares no que chamam de “golpe”. Arquivos desclassificados foram mostrados, mensagens da embaixada dos EUA e relatórios da inteligência foram apresentadas como provas cabais de que houve ingerência norte-americana nos fatos que ocorreram em 1964. E, é claro, que os EUA acompanhavam o movimento de perto, pois uma ação comunista no Brasil daria à URSS uma vantagem econômica, militar e geopolítica ameaçadora aos seus interesses.
Acontece que toda essa documentação não é suficiente para que seja afirmado categoricamente (como fazem alguns autores) que houve uma conspiração norte americana anti-Jango Brasil. Os documentos nada mais são do que análises da inteligência norte americana dando conta da situação política, econômica e social que o Brasil vivia. Mesmo quando lemos a respeito do posicionamento da 4ª Frota da Marinha dos EUA, que deveria estar em condições de apoiar logística e militarmente o movimento caso ocorresse um conflito armado dentro do país, ainda sim não é suficiente para qu se confirme uma conspiração. Ora, se fosse algo arquitetado desde Washington, os navios de guerra já estariam ancorados nos portos brasileiros e invadido o território nacional em apoio às ações dos militares que se posicionaram contrários a Jango e não (como se observa nas mensagens desclassificadas) um mero plano de contingência. Não obstante, não há qualquer evidência de que o Mal Castelo Branco ou qualquer outro líder militar ou civil tenha entrado em contato com o governo dos EUA para que fosse desencadeada uma ação deste tipo.
Negar a atuação da inteligência dos EUA em apoio quer seja moral quer seja financeiro àqueles que se posicionavam contra Jango seria muito ingênuo. Provavelmente este apoio aconteceu. Convém, porém, lembrar que os americanos não eram os únicos a atuarem por meio de seu serviço secreto. Não esqueçamos que a URSS dispunha (dispõe) do serviço secreto mais eficiente do mundo, a KGB, que atuava ativamente no país por meio dos mesmos expedientes utilizados pelos EUA qual sejam: financiamento de candidatos, compra de jornais e, ainda, por meio de operações de desinformação, algo completamente ignorado no Ocidente.
Se a CIA tinha agentes no país, a KGB também. Através do STB, o Serviço Secreto Tcheco, lotou agentes no Brasil, comprou jornais e passou a realizar as chamadas medidas ativas no campo da desinformação. Uma dessas várias operações foi, justamente, forjar o suposto envolvimento dos EUA no que aconteceu em 1964. Essas operações são confirmadas no livro de Ladislav Bittman (que chefiava o serviço de espionagem tcheca na área de desinformação), The KGB And Soviet Disinformation. Além de explicar o que é a desinformação, Bittman afirma que, a época, a KGB mantinha jornalistas como agentes de influência e possuía um jornal que circulava no país livremente.
A respeito da América Latina escreve: "Queríamos criar a impressão que os Estados Unidos estavam forçando a Organização dos Estados Americanos (OEA) a tomar uma posição mais anticomunista, enquanto a CIA planejava golpes contra os regimes do Chile, Uruguai, Brasil, México e Cuba (...) A Operação foi projetada para criar no público latino-americano uma prevenção contra a política linha dura americana, incitar demonstrações mais intensas de sentimentos antiamericanos e rotular a CIA como notória perpetradora de intrigas antidemocráticas"
Ainda sobre a atuação do STB no Brasil o canal do youtube “História Heróica” divulgou um vídeo onde faz a leitura dos arquivos daquele serviço secreto que foram desclassificados e que comprovam a influência do STB (e por extensão, da KGB) no Brasil no período. Sobre a atuação de agentes de influência comunista próximos ao presidente João Goulart, o mesmo canal dispõe de outro vídeo onde fica demonstrado que foi plantado um colaborador da KGB muito próximo a Jango.7
Verifica-se que, embora o Brasil fosse alinhado e aliado dos EUA, não há elementos suficientes para que seja dito que a contrarrevolução ocorrida em março de 1964 fora orquestrada desde Washington. Em contrapartida, pode ter ocorrido certa influência dentro do meio civil e mesmo militar. Afinal, como dito, o mundo vivia um conflito ideológico entre o modelo comunista e o ocidental.
Também é preciso que seja esclarecida a influência da URSS no surgimento do pensamento comunista no Brasil, ainda na década de 1920. Sem entender como funciona uma operação de desinformação não é possível compreender a real influência da KGB e seus colaboradores junto ao presidente Jango e seus aliados. Estas informações são mais difíceis de serem adquiridas porque muitos dos arquivos da KGB ou foram destruídos ou permanecem fechados. O que dispomos, são de informações dadas por desertores como Ladislav Bittman ou Yuri Bezmenov.
Infelizmente, nossos historiadores ignoram por completo o papel do bloco comunista durante os idos de 1964 e buscam forçar a todo custo a ideia de que houve uma articulação militar para a invasão do Brasil pelos EUA, algo que não se sustenta quer seja pela inexistência de documentação que mostre efetivamente este planejamento ou devido aos falsos documentos produzidos pelas operações de desinformação da KGB ou do STB. O problema é que para se tenha acesso à literatura a respeito, é preciso falar pelo menos o idioma inglês... E nossos intelectuais e acadêmicos mal conseguem se expressar na sua língua mãe.
O fato, quer queiram ou não, é que a reação das forças conservadoras do país acabou por impedir a transformação do Brasil em mais uma república popular. Os militares não fizeram nada ao arrepio da vontade da população que viu em Jango o caminho para a catástrofe. Reagiram e, sem derramamento de sangue, garantiram o caminho para a permanência da democracia e das liberdades individuais nas terras brasileiras. O fizeram sem conluios ou ações coordenadas com os EUA ou qualquer outro país estrangeiro. E salvaram o Brasil da ameaça vermelha.
Portanto, muito mais que lembrar o que aconteceu em 31 de março de 1964, é preciso estudar e comemorar. A contrarrevolução foi, naquele momento, necessária. É isso que devemos saudar, lembrar e exaltar. É isso o que esta data significa. Quanto ao regime que se seguiu, é outra história com outras variantes e outra conjuntura. Portanto, mais do que nunca: VIVA A CONTRARREVOLUÇÃO DE 31 DE MARÇO DE 1964!

Um comentário:

  1. O atual momento que o país passa é bastante próximo aos episódios que antecederam o contragolpe de '64. E tirando uma meia-dúzia de alienados que ignoram os perigos das doutrinas vermelhas e uns militontos de plantão que aparecem de vez em quando, eu nunca vejo ninguém defender a atual situação do país ou criticar os militares. Aliás, a única crítica que eu ouço frequentemente é que os militares brasileiros foram moles demais, e lamentos por não terem mandado mais comunistas para o colo do capeta.

    ResponderExcluir