terça-feira, 11 de agosto de 2015

Bombas Atômicas: Sim, Foram Necessárias.

Na semana passada, lembramos os 70 anos do ataque nuclear às cidade de Hiroshima e Nagazaki. A explosão dos artefatos a fissão nuclear levou a destruição e o caos àquelas cidade japonesa. A arma bélica mais letal criado pela mente humana mostrou sua face cruel e destruidora ao varrer do mapa as duas cidades japonesas e causar cerca de 300 mil mortes.Não há duvida quanto à crueldade das bombas. Vidas humanas foram instantaneamente ceifadas. A grande maioria das vítimas eram civis.
A justificativa americana para esses ataques era a de que não havia outra maneira de os japoneses se renderem. Portanto, a demonstração do poderio destrutivo das bombas nucleares poderiam fazer com que o Japão, finalmente, se rendesse de forma incondicional. E foi o que acabou acontecendo. A questão que fica, entretanto, é a seguinte: a rendição japonesa era uma questão de tempo ou o bombardeio atômico foi realmente necessário?
Para que possamos responder a esse questionamento, é necessário que entendamos a formação social japonesa. O Japão era uma teocracia, onde o Imperador era encarado como o próprio Deus. Assim, a população não mediria esforços para sacrificar sua própria vida em seu nome. Não é à toa que o combate no Pacífico caracterizou-se por ser uma luta extremamente aguerrida, com os japoneses jamais se rendendo. Seria por demais ingênuo acreditar que o Exército Japonês se renderia justamente quando os aliados invadiriam o se território.
O que poucos sabem é que os aliados tinham sim um plano para invadir o Japão. Tratava-se da Operação Downfall. Esta jamais chegou a ser concretizada, principalmente devido aos altos custos de vidas humanas que seriam necessários para o seu sucesso. Essa operação seria desencadeada da seguinte maneira:
A primeira invasão tinha o nome-código de Operação Olímpico. Tratava-se de um assalto anfíbio nas primeiras horas da manhã do dia 01 de novembro de 1945. Quatorze Divisões desembarcariam contra posições fortificadas em Kyushu, a Ilha mais ao sul do arquipélago japonês, após um bombardeio aero-naval sem precedentes.A segunda, em 1º de março de 1946 "Operação Diadema" enviaria pelo menos 22 divisões contra 1 milhão de defensores japoneses na ilha principal de Honshu e Tokyo. Seu objetivo: a rendição incondicional do Japão.

Com exceção de uma parte da frota britânica no pacífico, a Operação Downfall seria uma operação estritamente americana. Seriam utilizados todo o corpo de Marines, toda a Força Naval do Pacífico, elementos da 7ª Força Aérea do Exército, a 8ª Força Aérea, a 10ª Força aérea e a Força Aérea Americana do Extremo Oriente. Mais de 1,5 milhão de soldados e outros 3 milhões em apoio, ou ceca de 40% de todos os homens em serviço às Forças Armadas Norte Americanas em 1945, estariam envolvidos. As baixas esperadas eram extremamente pesadas.
O almirante William Leahy estimou as baixas americanas em mais de 250 mil entre mortos e feridos apenas no assalto a Kyushu. O General Willoughby, chefe da inteligência do general MacArthur, o Supremo Comandante do Pacífico sudoeste, estimou as baixas americanas em 1 milhão no outono de 1946. A própria equipe de Willoughby considerou essas estimativas conservadoras.
Como podemos verificar, a estimativa para as baixas das forças invasoras era de cerca de 1 milhão e 250 mil pessoas. Ou seja, somente em baixas por parte do Exército aliado, o número superaria em 5 vezes as baixas causadas pelos ataques nucleares.
O presidente americano Truman aprovo os planos para a invasão em 24 de julho. Dois dias antes, as Nações Unidas emitiu a Proclamação de Potsdam, exigindo a rendição incondicional do Japão ou que aquele país enfrentasse a destruição total. Três dias depois, a agência japonesa de notícias transmitiu ao mundo que o Japão ignorara a proclamação e se recusaria a render-se. Durante esse período, o monitoramento das transmissões de rádios japonesas mostrou que o Japão tinha fechado todas as escolas e mobilizado os estudantes, tendo armado a população civil e fortificando cavernas e construções defensivas subterrâneas. A rendição não parecia ser uma "questão de tempo".
As defesas japonesas form subestimadas pela inteligência aliada. As aeronaves japonesas foram estimadas em não mais do que 2500. Entretanto, os japoneses tinham 12725 aviões de todos os tipos. Toda vila tinha algum tipo de atividade ligada à produção de aeronaves. Escondidas em minas, túneis ferroviários, sob viadutos e em porões de lojas de departamentos, trabalho estava sendo feito para a construção de aviões. A marinha japonesa tinha 40 submarinos, com capacidade disparar torpedos de longo alcance, 23 destróiers e 2 cruzadores.
Enfrentando as 14 divisões americanas em Kyushu, teriam 14 divisões japonesas, 7 brigadas mistas independentes, 3 brigadas blindadas e milhares de fuzileiros navais. Seriam 550 mil americanos contra 790 mil japoneses. Ainda, tratavam-se de tropas altamente treinadas, alimentadas e equipadas, muito diferente do que os americanos encontraram no Pacífico até então. Os defensores japoneses eram a elite fanática do Exército Imperial.
Os aliados enfrentariam inúmeros obstáculos, fortificações, armadilhas e embocadas. Seria uma guerra por metros ou centímetros, onde cada avanço custaria um número inestimado de vidas. Ainda, caso a Operação Olímpico tivesse acontecido, a população civil japonesa, inflamada pelo slogan "cem milhões morrerão pelo imperador e a Nação", estavam preparados para lutar até a morte. Cerca de 28 milhões de japoneses formavam a Força Nacional de Combatentes Voluntários. Eles eram armados com fuzis antigos, mines, coquetéis Molotovs e morteiros. Outros eram armados com espadas, arcos, machados e lanças de bambu. As unidades civis seriam utilizadas em ataques noturnos, inclusive suicidas, no ponto mais vulneráveis das posições americanas. Estima-se que 1000 pessoas, entre japoneses e americanos, morreriam a cada hora caso a operação fosse desencadeada.
Como se vê a rendição japonesa não era "uma questão de tempo". A formação cultural japonesa e os combates que foram travados no Pacífico mostram isso. Eram soldados extremamente aguerridos, fanáticos e dispostos a sacrificar suas vidas pelo Imperador sem pestanejar. E eram cruéis. Durante a invasão á China, milhares de mulheres chinesas foram decapitadas, estupradas e mortas, algumas segurando crianças em seus braços, numa inútil defesa contra lâmina da espada japonesa. Bebês eram atirados ao alto e aparados à baioneta. Sim, os japoneses foram extremamente cruéis e desumanos.
Dizer que o lançamento das bombas atômicas foi "um mero teste" é desconhecer completamente os fundamentos da arte da guerra. Crer que a rendição japonesa era uma questão de tempo é desconhecer por inteiro a sociedade nipônica. Tratar o Japão como "coitadinho" por ter sido alvo dos ataques nucleares é nada além de canalhice e falsificação da história. De fato, os artefatos nucleares pouparam o arquipélago japonês de sofrer um banho de sangue sem paralelo na História. Evidentemente, salvaram vidas americanas. E japonesas também. 
O impacto visual do grande cogumelo de fogo e destruição ceifando vidas humanas é realmente impressionante. Porém, mais forte ainda é um conflito sangrento envolvendo milhões de pessoas lutando e morrendo por cada palmo de território em busca da vitória. Não fossem as bombas atômicas darem fim à guerra, hoje provavelmente o Japão não existiria. 

sábado, 1 de agosto de 2015

A Crise das Crises

Há crises e crises. Geralmente, quando se fala em crise, imediatamente nos vem a mente a ideia de que ela é econômica. Invariavelmente, este é o seu esteriótipo: aumento do desemprego, aumento da inflação, queda da produção industrial, queda do crescimento do PIB, queda do valor da moeda e inúmeros pedidos de falência. Eis a crise.
Ocorre que o conceito de crise não fica restrito apenas ao aspecto econômico de uma sociedade ou país. Não obstante, qualquer aspecto da vida de um povo pode ser levado a uma situação de colapso, que pode pôr em jogo não apenas sua economia, mas sua própria existência.
O Brasil vive hoje um momento de crise. Não há como negá-la. Mas não é uma crise comum. Ela se estende para além da economia e atinge campos como a cultura, religião, educação, segurança, política e outros. Para que fosse perfeita, bastaria termos uma crise institucional que, ainda, não aconteceu (ou pelo menos não se manifestou).
Culturalmente, somos um país esfacelado. A substituição da alta cultura pela popular fez, com que o cenário intelectual artístico brasileiro se tornasse nada menos que medíocre. A elevação de manifestações populares de valor nulo aos patamares de nossos grandes artistas de outrora é o sintoma mais visível do mergulho ao fundo do poço no qual estamos. Hoje, qualquer pessoa que consiga fazer uma rima  ou escrever corretamente um parágrafo é catapultada à condição de gênio criativo. O mesmo acontece nas artes cênicas e plásticas. Crianças em danças sensuais, homens e mulheres seminuas ao som do funk sendo promovidos em rede nacional e o baixíssimo valor cultural de nossas telenovelas nos dão a dimensão de como estamos deteriorados.
No que tange à religião, nota-se um ataque implacável ao Cristianismo. Estes advém prioritariamente da produção televisiva, notadamente de telenovelas. Após levarem o catolicismo ao descrédito, as armas agora se voltam aos chamados evangélicos. Em contrapartida, há uma verdadeira campanha para a promoção da corrente espiritualista e espírita. Isso não é por acaso. Destruir as crenças religiosas de uma sociedade e substituí-las por outras é condição primordial para que se possa corrompê-la a ponto de se construir, sobre suas ruínas, uma nova realidade.
O sistema educacional brasileiro resume-se a uma única palavra: falido. Do nível primário ao superior, a educação brasileira especializou-se apenas em formar militantes. A pesquisa científica é pífia e a compreensão da língua pelos estudantes em todos os níveis é sofrível. O aluno aprende muita luta de classe, sexo, discriminação, ideologia política enfim, um sem número de "disciplinas" completamente inúteis. O resultado é o desempenho ridículo que temos nas avaliações internacionais. O fim da autoridade do professor em sala de aula (semente construtivista plantada por eles próprios) e a "pedagogia do amor", onde o aluno não pode ser reprovado, completam as reformas que tornaram o sistema de ensino do Brasil um dos piores do mundo.
Com a segurança, não acontece diferente. Uma legislação branda combinada com a ilusão progressista de que "cadeia ressocializa" transformaram o país em um campo de guerra. O discurso idiota da esquerda, que torna o criminoso uma vítima da sociedade, literalmente sitiou o cidadão comum. As forças policiais, além de mal remuneradas, são colocadas como vilãs do processo, mesmo quando arriscam suas vidas pelas nossas. Virou lugar-comum sair pela cidade e encontrar residências gradeadas, muradas e até com concertina, material usado tipicamente em presídios. A população é prisioneira em sua própria casa e, para completar, o governo retirou-lhe o direito à defesa por intermédio da posse de armas. A certeza da impunidade e a garantia de que a vítima estará indefesa tornaram o crime cada vez mais compensador.
Na área política a crise também é grave. A compra do Poder Legislativo pelo Executivo (mensalão) foi o maior atentado à democracia que já se praticou na História do Brasil. Sua importância, porém, é minimizada; é tratada apenas como mais um ato de corrupção, mas não é. Os escândalos envolvendo a Petrobrás, Correios e, muito provavelmente, o BNDES são motivos muito mais que suficientes para o impedimento da presidente. Collor caiu por muitíssimo menos. Como arremate, temos o Poder Judiciário extrapolando flagrantemente suas atribuições ao se tornar, de fato, legislador. Inúmeras são as Leis que são definidas ou modificadas pelo Supremo Tribunal Federal por intermédio de canetadas de juízes. Quem cria as Leis é o Legislativo, justamente por ele representar a população que elegeu seus integrantes. Transferir esta atribuição a um Judiciário aparelhado como o nosso além de mostrar a covardia de nossos Deputados e Senadores é um passo decisivo rumo a um governo cada vez mais totalitário.
Como se vê, a crise que vivemos não é algo estritamente econômico. Sim, temos uma na economia que vai ficar cada vez mais grave. Entretanto nossa crise é total e abrange, como visto, todo o espectro social. Vivemos em uma situação de grave ameaça à nossa própria identidade como povo e nação porque somos vítimas há, pelo menos, 40 anos de um processo de engenharia social que está nos transformando sem que possamos perceber, em virtude da lentidão dessas mudanças. 
Por incrível que pareça, ainda dá tempo de reagirmos e invertermos a situação. O problema é que o conserto de todo este estrago levará, pelo menos, duas gerações.