terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O Capitalismo Fracassou... Será?

Há alguns dias atrás vi compartilhado um texto no facebook escrito por Gustavo Tanaka versando sobre a falência do capitalismo. Nele o autor enumera 8 motivos pelos quais, segundo ele, o sistema capitalista não deu certo. E que seria a hora de aceitarmos isso.
O texto começa com uma pequena apresentação do autor, destacando o fato de que ele não é um integrante da esquerda. Pelo contrário. É "um cara que sempre foi um capitalista", dentre outras peculiaridades biográficas e os motivos gerais que o levaram a desacreditar do capitalismo (e pretende dar um certo ar de credibilidade ao texto, anticapitalista, escrito por um capitalista.
Mas será que o capitalismo não deu certo? Vejamos os pontos do sr Tanaka:

1- Esgotamento dos recursos

O autor fala em "esgotamento dos recursos", dizendo que não temos mais reservas minerais, que estamos destruindo a amazônia, vivemos num mundo poluído, cinza e cheio de fumaça e que temos uma agricultura de monocultura que "detona o solo". Como arremate, diz que comemos alimento com veneno e bebemos água suja.
É óbvio que o desenvolvimento econômico causa impactos ao meio ambiente. Mas daí a dizer que não temos mais reservas minerais é um pouco forçado. Penso que o autor quis dizer que elas estão esgotadas. Afinal, descobertas ou não, nossas reservas minerais são fixas. Porém não me parece que elas tenha se exaurido. 
Quanto à destruição da amazônia, esta ocorre por dois fatores apenas: exploração da madeira e expansão da fronteira agrícola. E o que o capitalismo tem com isso? Ora, no início da exploração madeireira a extração da matéria-prima era realmente intensa. Até que um capitalista malvadão pensou: "posolha tchê! (naquela época a gauchada já dominava o mundo) E se a gente ao invés de cortar toda essa madeira, passasse a plantar árvores específicas para atender à demanda?" E assim surgiram os móveis com madeira de reflorestamento.
O mesmo aconteceu com a exploração agrícola. A necessidade CAPITALISTA de se reduzir custo levou ao desenvolvimento de tecnologias que permitisse o aumento da produtividade com menos necessidade de terras. "Ah mas a monocultura que 'detona o solo' e tal?" Parece que inventaram a solução para isso também. E ainda na Idade Média! Já ouviu falar em crop rotation ou rotação de culturas? É aquela coisa que aprendemos nas aula de geografia da 6ª série (pelo menos eu aprendi) que serve justamente para... Repor as perdas do solo. Soma-se a isso, os pesticidas e alimentos transgênicos que possibilitaram o aumento da produtividade da agricultura acarretando, consequentemente, menos terras e menos desmatamento. E, claro, menos custo. (custo, aquilo que o capitalismo insiste em diminuir, porca miséria!)
O desenvolvimento da civilização humana provocou, fatalmente, a poluição do ambiente. É por isso que viemos em "um mundo poluído, cinza e cheio de fumaça". Calma aí cara-pálida. Eu não! Isso é coisa de cidade grande! Ah, mas não queres abrir mão da internet mega-power-hyper rápida, do cinema no final de semana ou de um show de sertanejo universitário... Bom, aí a escolha é sua. Mas só para constar, o desenvolvimento de tecnologias ecologicamente corretas só esta´sendo possível devido à acumulação de capital causada pelo... Capitalismo.
Ah, já ia me esquecendo que comemos alimento com veneno e bebemos  água suja por casa do capitalismo? Pois é... Deve ser por isso que, desde a Revolução Industrial, a expectativa de vida mundial mais que dobrou. "Ah mas tem câncer, doenças genéticas e tal". Sim, e querias ficar velho com a saúde de um garotão? Isso é pro Benjamin Button!

2. Desconexão com a natureza

Neste item, o texto dia que "ninguém sabe como se planta um tomate, que só se ensina na escola o que se pede no vestibular, que precisamos de pessoas com diplomas que consigam bons empregos". Calma lá! Eu aprendi na escola ( e com meu pai também) como se planta um tomateiro (e um pé de cenoura, como se faz um canteiro de alface, etc...) na disciplina "técnicas agrícolas". No PRIMÁRIO! Deve ser porque eu fiz o primário durante a terrível e horrenda ditadura militar. Hoje sim que é bom! Na escola se aprende mais a trepar do que a "matéria do vestibular". Põe a culpa no capitalismo não fío! Destruição da sociedade e ensino de coisas inúteis é coisa de socialismo.

3. Condição bizarra que alçamos a economia

Aqui, o autor diz que o homem teme a economia (antes eram os deuses e a natureza), mas que a economia não existe, não é um ser vivo e que nós a criamos e que ela controla nossas vidas. Ainda, que nós não nos preocupamos se está chovendo o suficiente, se o clima está mudando, etc. O simples fato do mercado impactar em nossas vidas, implica a sua existência real. Não inventamos a economia mas a descobrimos. Desde os primórdios da civilização estávamos sujeitos às suas leis (notadamente a lei da escassez). Também nos preocupamos sim se está chovendo ou com a mudanças climáticas que afetam as plantações. Afinal, estes fenômenos acabam afetando nossas vidas e... A economia!

4- Uma sociedade de escravos do sistema

Pessoas que vendem suas vidas por um salário no final do mês, que têm muitas coisas para pagar, mas que não são culpadas. Assim o autor defini nossa escravidão ao capitalismo e, claro, culpa-o. Mas quem ele pensa que é para dizer que as pessoas "vendem" suas vidas?
O que elas vendem é o valor do seu trabalho. E se não ganham mais, é porque o Estado intervém e obriga o empregador a pagar-lhes uma série de direitos compulsoriamente. Ora, se não se pode abrir mão de um direito, ele não é um direito! Tudo é uma questão de escolha. Se quisermos fazer algo diferente do que fazemos, temos toda a liberdade para isso, mas somos prisioneiros das consequências de nossa escolha, para o bem e para o mal. Se não devemos vender nosso trabalho, vamos fazer o quê? Deixar que um Estado defina como devem ser nossas vidas? É meu caro. O socialismo já tentou isso... E deixou 100 milhões de mortos...

5- Meritocracia não é um modelo justo

Vou colocar o que o autor escreveu literalmente: "Quem merece mais que o outro? Você deve responder que é o cara que se esforçou e se dedicou mais, certo?Mas o que está por trás dessa dedicação?Talvez eu e você estejamos competindo pela mesma promoção. Eu trabalhei 12 horas por dia e você “apenas” 8. Então a lógica é que a vaga seja minha.Mas eu não tenho filhos, não tenho dívidas, não sou casado e nem tenho familiares doentes. Você tem 2 filhos pequenos, uma esposa sem emprego, dívidas que você herdou e um pai doente e que necessita de cuidados.Faz sentido essa meritocracia?"
Na verdade... Faz. Aqui há a clássica confusão entre o merecer e o precisar. Novamente, temos ilustrada a questão da escolha. Há pessoas que escolhem trabalhar 12 horas por dia. Outras que tem 2 filhos, dívidas de herança, etc. E não conseguimos dizer, apenas com esses dados, qual delas é a mais feliz. Se temos um pai doente e uma família numerosa, devemos trabalhar e economizar o dinheiro. Se queremos mais, devemos estudar mais e trabalhar mais, sacrificando o convívio com a família. É assim que funciona, e isso não vai mudar só porque você quer. Novamente, é tudo uma questão de escolha "inclusive dos pais que deixam dívidas para seus filhos". Este item retrata a idéia tosca que temos no Brasil de que alguém precisa nos amparar. Errado. Nós somos os responsáveis pela escolhas que fazemos.

6- Uma sociedade que não valoriza a arte

Neste item, o texto fala que "é mas importante ser produtivo que criativo" que pessoas que são "boas de matemática" ganham mais do que quem pinta ou esculpe e que matamos inúmeras obras de arte antes de nascer (sic) etc. Primeiro: não houve na história nada que apoiasse mais as artes do que o capitalismo. Ora, foi o acúmulo de capital, notadamente da burguesia comercial italiana, que possibilitou o Renascimento Clássico. O acúmulo de capital fez com que aristas pudessem ser financiados! Simples assim. O problema é que, hoje, qualquer zé das couves se acha "o" artista. Aliás, qualquer idiotice que os filhos fazem, os pais e professores correm para dizer-lhes "nossa, genial isso!"
A arte está decadente porque inventaram essa imbecilidade de que "tudo é igual, funk é cultura" etc. E sabe quem prega a igualdade né? Sim, o socialismo! Então meu caro, não venha culpar o capitalismo pela existência de uma sociedade que, segundo tua observação, não valoriza a arte (não valoriza mesmo). A culpa é da educação, mais precisamente, de Paulo Freire. O capitalismo foi e é o responsável pelo sustento dos artista, quer queira, quer não. Quanto à qualidade da arte, aí depende do nível da cultura de cada povo.

 7- Nunca é suficiente 

Uma outra queixa do texto é a de que as empresas almejam um crescimento constante e que isto seria impossível A busca pelo constante aumento de vendas, lucros, etc. As empresas querem crescimento todo ano e que isso deixa as pessoas ansiosas (aliás, o texto chega a perguntar ao leitor se "já viu alguma empresa ter como meta reduzir seu faturamento" o que, por motivos óbvios, não merece qualquer comentário). O texto segue perguntando se é possível crescer o tempo todo e vender mais e mais. E isso, segundo o artigo, traria dificuldade para vivermos o agora, pois sempre estamos com a cabeça no futuro.
Ora. Estabelecer metas de crescimento não significa manter este crescimento. A questão aqui é motivar os quadros da empresa a buscarem os melhores resultados diante das dificuldades que o mundo lhe apresenta. Crescimento como objetivo não significa certeza dele.  Se em um determinado ano a empresa cresceu, ótimo; mantenha-se a meta de crescer mais. Se ela não cresceu... Bem, estabelecer uma meta de crescimento me parece óbvio não.
Quanto ao "deixar de viver o agora para pensar no futuro" parece ser meio contraditório. Fosse assim, florestas seriam desmatadas e ambientes poluídos para que se alcançasse o "agora" sem se preocupar com "o futuro". Aqui, mais uma vez, a estrutura capitalista nos faz viver o presente, mas buscando condições de melhorar nossa capacidade produtiva no futuro para que possamos, entre outras coisas, reduzir o impacto no meio ambiente.

8- Vida sem equilíbrio

Por fim, o autor diz que comemos mal e não fazemos exercícios porque não temos tempo. Ainda, que não nos conectamos com a natureza porque a cidade é feita de asfalto e concreto, não meditamos, somos criticados porque dormimos até tarde ou porque queremos sair de férias com a família. 
Novamente, tudo é uma questão de escolha, ambição. Se alguém foca em sua carreira e, para isso, abre mão de tudo o que o autor disse, foi a sua escolha. De outra sorte, existem pessoas que já estão satisfeitas com a sua posição e que podem usufruir daquilo que, pelo texto, o capitalismo as nega. 
Aliás, que tal mudar para uma cidadezinha no interior, para um sítio ou para uma montanha e lá começar a cultivar sua própria comida, ter tempo para meditar, dormir mais tarde, respirar ar puro, e tudo o mais? Com certeza não terá asfalto ou a vista do escritório para mais e mais prédios! Ah... Mas aí não tem internet, cinema, teatro, barzinho... A escolha é toda sua e ninguém irá interferir nela (embora a esquerda adore querer mandar nas escolhas alheias). Vale lembrar que, não fosse a existência de cidades com edifícios que possibilitam a otimização da ocupação do espaço, quanto será que o meio ambiente já estaria degradado?
O texto é finalizado com um ataque ao capitalismo (sistema que criamos) e que deveríamos criar um outro sistema para equilibrar as coisas.
Mas não criamos o capitalismo. Ele é apenas a aplicação natural das regras da natureza na economia. O termo "capitalismo" é criação de Marx. Ou alguém aí pode apontar um grande pensador capitalista? Mesmo porque, o capitalismo já foi e é aplicado nos regimes socialistas.
Grande parte das falhas colocadas na conta desse sistema não são propriamente dele, mas da intervenção que o Estado faz nele. Todas as vezes que foram criados regimes que interferiram direta ou indiretamente nas regras de mercado, o desequilíbrio aconteceu e o caos foi semeado.
A única maneira de se modificar o capitalismo, como quer o sr Tanaka, é através do controle sistemático das paixões humanas, coisa que o próprio Deus não é capaz de interferir. É o tal do livre arbítrio. E todas as vezes que surgiram iluminados com sistemas milagrosos capazes de transformar todos em iguais, os resultados foram sangrentos. 
Ninguém é obrigado a nada. Pode-se simplesmente mudar de vida e largar tudo pro alto. Mas querer os benefícios de uma vida que só o capitalismo pode trazer e a tranquilidade e paz de espírito que às vezes sua ausência nos proporciona é algo difícil de se conciliar. Mas trabalhando duro e juntando recursos, quem sabe não compramos um sítio ou uma cabana no meio da floresta?
É evidente que o sistema capitalista não é perfeito e está sujeito a falhas. Mas muitas delas têm origem no afastamento dos valores religiosos, principalmente os cristãos, que caracterizam nossa sociedade moderna. Esta negação à religião é que nos tornou "escravos" do sistema, deixando valores como caridade, humanidade e bondade, relegados a um segundo plano. E isso, meu caro, não é culpa do capitalismo.
Foi o acúmulo de riquezas e recursos causados por ele que, como dito, os grandes artistas, arquitetos, engenheiros, músicos e tutti quanti puderam expor seus talentos. Pesquisas científicas e as grandes inovações em todos os campos do conhecimento humano aconteceram por intermédio de iniciativas individuais geralmente financiadas por empresas ou pessoas que, ao longo do tempo, acumularam recursos para patrociná-los. Inclusive no caso de ajuda humanitária e desastres naturais (os EUA, capitalista por excelência, é o país onde mais pessoas realizam doações voluntárias)
Se estamos neste estado depressivo que o texto sugere a culpa não é do capitalismo. Talvez seja a de nossos próprios egos que, afagados desde a mais tenra idade, nos faz crer que somos lindos e maravilhosos quando, muita vezes, não passamos de medíocres.

PS: nunca vi alguém ser criticado ou criticar outrem por querer passar férias com a sua família.

Um comentário:

  1. Queria ver esse japonês passar um mês num campo de "reeducação" norte-coreano para ver se continua criticando o capitalismo...

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