domingo, 21 de fevereiro de 2016

Os Castelos de Porto Alegre.

Quarta-feira, 17 de fevereiro. Final de jogo no estádio Beira-Rio em Porto Alegre. Vitória do Internacional sobre o Avaí pela Primeira Liga. Saí do local feliz pela vitória colorada (nem tanto pelo desempenho da equipe) e comecei a fazer o percurso de retorno à residência de meus pais. O mesmo que tantas vezes fiz desde, pelo menos, 1995. E comecei a subir a rua Silvério. Já tinha anoitecido.
Sem rádio (saí na correria porque acabara de atravessar o Estado de automóvel uma hora antes) somente tinha a mim mesmo como companhia. E, sem mais nem menos, comecei a pensar sobre castelos. Sim, castelos! Símbolos da Idade Média e Moderna na Europa... Uma pergunta me veio à mente: O que eles são?
Mais que depressa, a resposta: castelos são estruturas militares de caráter defensivo que surgiram da necessidade de proteção contra as invasões bárbaras às terras que pertenciam ao Império Romano. Com o seu colapso, a nobreza romana (detentora de terras) deu abrigo aos demais integrantes da sociedade que chegava a seu fim. Em troca, exigia o seu trabalho. Esta relação social era o colonato: trabalho em troca de proteção.
Conforme o tempo foi passando, as propriedades rurais da nobreza romana começaram a ficar cada vez mais fortificadas. Isso tinha como objetivo aumentar a proteção àqueles que viviam dentro dela. Surgiam os feudos, cujo símbolo mais famoso é o castelo. O feudo, murado, bem guarnecido e protegido muitas vezes por um fosso, garantia que o nobre proprietário e os servos ficassem protegidos dos ataques bárbaros e de grupos que promoviam a violência pelo território europeu.
Entretanto, com o surgimento dos Estados Nacionais, os castelos começaram gradativamente a perder sua função primeira.  A unificação política do território sob um único monarca garantiu à população a segurança que havia sido perdida. Começaram a surgir cidades (burgos) que atraíram os servos para fora dos muros dos castelos. Assim, podemos entender que é o surgimento (ou ressurgimento) do Estado como garantidor da segurança que transformou os castelos de estruturas defensivas a residências.
Já no meio da rua Silvério, entre alguns viciados em crack e o cheiro de dejetos humanos, me impactou a maneira como aquele caminho que eu fazia quase todas as semanas após o jogo do colorado tinha mudado. Muros mais altos, cercas elétricas, concertinas, segurança particular. O motivo é óbvio: preservar a segurança dos moradores.
Foi então que enxerguei que cada casa ou condomínio da cidade passou a ter as características necessárias para proteger seus residentes. Passaram a ser estruturas defensivas contra a violência cada vez mais crescente na capital gaúcha. A insegurança da Idade Média parecia ter voltado. E voltou. Sob nova roupagem é verdade. Não temos hordas bárbaras vagando entre os feudos. Agora temos facções criminosas lutando pelo tráfico, gangues de ladrões, viciados em crack que fazem absolutamente tudo por mais uma pedra.
O Estado, que deveria garantir nossa segurança, resolve se imiscuir em assuntos que não podem fazer parte da sua alçada. Como a lei ridícula que proíbe os saleiros nas mesas dos bares e restaurantes da capital. O Estado quer se meter em tudo: o que lemos, o que comemos, o que escutamos, se fumamos, se bebemos, quais sites acessamos, que coisas compramos... Mas ele não se mete naquilo que é sua razão de ser: segurança. Como resultado, temos o surgimento dos novos castelos. Diferentes na arquitetura, mas idênticos na função.
Passamos a nos acostumar com casas e edifícios gradeados, com segurança particular e com o surgimento de bairros privados. Queremos ter alguém armado que possa nos proteger, já que o Estado nos tirou este direito mesmo que tenhamos votado contra o desarmamento no referendo.

Queremos uma polícia eficiente e que possa nos manter seguros, mas a imprensa (principalmente) faz questão de denegrir sua imagem sempre que pode (e a tratar todo bandido como um pobre coitadinho, vítima da sociedade). A violência passou a fazer com que passássemos a construir estruturas que nos sirvam de abrigo mais do que de moradia. O Estado, como outrora, não garante mais a nossa segurança. E Porto Alegre passou a ter cada vez mais e mais castelos. 

Um comentário:

  1. É mesmo uma vergonha esse desvio de função que o Estado vem sofrendo pelas mãos da esquerda. Deixam a verdadeira obrigação de lado para concentrar esforços inúteis em futilidades e falcatruas.

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